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sexta-feira, 15 de abril de 2022

 

A história de um processo

Tem coisas que só de remexer nas memórias provocam em nosso ser dores imensas. O que estou fazendo agora e me propondo a fazer, escrever a história de uma luta Judicial que começou no mês de outubro do ano de 2004, e até  hoje não terminou, provoca este tipo de dor. Nunca imagine que a justiça brasileira fosse tão frágil, e que buscar direitos e proteção pudessem causar tanta dor e sofrimento. De forma que se alguém me pedisse conselho para entrar ou não na justiça hoje, em busca de resguarda seus direitos, minha primeira reação, se ouvir as dores que existem em mim, é dizer não.

Esta é a história de um processo judicial que começou como um mandado de segurança e buscava corrigir uma injustiça flagrante, mas que tal mandado de segurança só foi julgado três anos depois. Uma das partes mais doloridas foi ouvir de um juiz que eu deveria abandonar o processo por que ele jamais iria julgar o mandado de segurança, e que se algum dia aquele mandado de segurança fosse julgado, a sentença nunca seria cumprida. Ouvi a mesma coisa dos emissários do prefeito, do diretor acadêmico da Faculdade Senhor Alzair Eduardo Pontes, e ainda de diversas outras pessoas.

O Juiz em questão ( acho que o nome dele era Doutor Edson), realmente não julgou o mandado de Segurança. O processo foi julgado três anos depois, e eu até já havia desistido dele, estava trabalhando na cidade de Arraias e Campos Belos, nos campi da UFT ( Universidade Federal do Tocantins) e UEG ( Universidade Estadual de Goiás.  E julgado o processo pelo então Juiz Leonardo Aprígio Chaves, a Faculdade me chamou para fazer um acordo e reassumir minhas funções. E foi ai que eu cai na pior armadilha da minha vida. Eles quebraram o acordo e novamente me demitiram. E desta segundo afastamento,  no ano de 2010, o prejuízo foi ainda maior.

Quando falei que retomaria novamente, o processo judicial e os acionaria por quebra de acordo, eles disseram que daquela vez eles estava fazendo bem feito e que eu nunca mais colocaria os pés na faculdade novamente. Eu me lembro bem dos olhos do Cleiton Camilo, o Presidente da FESG que quebrou o acordo. Lembro das ameaças que ele me fez, inclusive de me dizer na sala dele, que se eu insistisse em retornar para Goiatuba eu poderia até perder a vida. Infelizmente, a imaturidade impediu que eu tivesse hoje provas materiais destes momentos tenebrosos.

Procurei novamente o advogado e retomamos a ação. E o Juiz, que estava na comarca ainda era o Doutor Leonardo Aprigio, que  decidiu no processo que uma vez que o acordo não tinha sido homologado, então não existia juridicamente, e deu prosseguimento a ação. Quando o Doutor Leonardo deu esta decisão, recebi proposta para aceitar negociar os salários atrasados que tinha direito, e ao mesmo tempo uma saraivada de ameaças. Eu rechacei a todas, afinal, eu queria uma coisa mais do que tudo, minha reintegração. Doía de mais em mim a forma como tudo foi conduzido e eu não entendia de fato o que estava acontecendo.

Infelizmente, o Doutor Aprigio foi transferido de comarca, e desde então, o processo nunca mais andou. Já passou pelas mãos de uns cinco juízes,  já paguei perita no processo  por perícia que nunca foi realizada, e até hoje, o cumprimento de sentença que já dura mais de dez anos, e ainda não foi cumprido continua sua saga. Esta é a história do processo 0335326-42.2005.8.09.0067, Nelson Soares dos Santos X FESG – Fundação de Ensino Superior de Goiatuba/ Prefeitura Municipal de Goiatuba. Um processo que começou no ano de 2004, e que ainda não terminou. E, que hoje, tem advogando pela prefeitura para retirar meus direitos nada menos que Felicissimo Sena, um dos maiores advogados do Estado , várias vezes presidente da OAB, e um homem milionário. Esta é uma luta de Davi contra Golias.

 

Um dia de escuridão e terror: ou como tudo começou?

 

Não me lembro do dia exato. Lembro que estava feliz. Eu estava namorando e tinha pedido a namorada em casamento. Tinha sido um final de semana que onde minhas esperanças de ter uma família voltaram a ganhar força depois de tantas dores já sofridas na vida. Cheguei na cidade de Goiatuba,  depois de uma viagem cansativa. Naquele dia eu tinha retornado pelo ônibus da Viação Estrela. A viagem era cansativa, parava em todas as cidades do caminho e os ônibus eram velhos.

Os professores que moravam em outras cidades eram alojados em uma casa de dois andares. Eu, ocupava uma da camas do quarto superior  com vistas da janela para rua, junto com outros três professores – Anderson, Ivaldo e Eltinho. Quando cheguei na casa, logo notei um clima estranho. O professor Anderson estava estranho, esquivo, distante. O professor Ivaldo estava falante. O professor Elton ( Eltinho) quase sempre quieto, quase nunca conversava com ninguém. Cheguei , guardei as malas e desci para comer alguma coisa. Quando desci o professor Elton Marinho estava chegando bêbado e disse uma frase, que só recentemente veio fazer sentido – Professor, tome cuidado com os inimigos, mas tome mais cuidado com os seus amigos.

Não prestei atenção.  A alegria do fim de semana vivido era meu ponto cego. Saímos, eu o professor Anderson e o Professor Ivaldo, e fomos comer um lanche. Na volta, foram feitas por eles  diversas perguntas sobre minhas aulas, que respondi de forma tranquila, já que não imaginava o que aconteceria na segunda feira. Eu era imaturo demais para perceber que estava em breve correndo o risco de cair em uma grande armadilha.

Na segunda, eu só tinha aula a noite. Então, deixei para ir para a faculdade depois das 16 horas, já que pensei ir e ficar até as dez da noite, o final do expediente. Quando sai da sala dos professores por voltada das 17 horas, com intenção de tomar um lanche nas lanchonetes em frente da faculdade, notei algo estranho. Havia, naquele dia vários carros da polícia e um camburão. Achei estranho por que não era comum  ver ali tantos policiais. Perguntei a um dos seguranças da faculdade se estava acontecendo algo  que justificasse tanta polícia ali naquele dia, no que me disseram que era apenas uma abordagem de rotina.

Até então eu não sabia que a chefia de departamento era ocupada pela  esposa do capitão da polícia e comandante do policiamento militar da cidade. Entretanto, meio que um sexto sentido acendeu em mim que de alguma forma eu estava correndo perigo. E assim que retornei para a faculdade, já quase na hora de ir para a sala de aula, a coordenadora, ( só me lembro do  primeiro nome,  Denise) chamou-me na sala da chefia de departamento  e disse que no curso de pedagogia não teria mais lugar para mim, que havia muitos alunos reclamando das minhas aulas, etc, etc. Questionei quais alunos reclamavam, e o que reclamavam, e que eu gostaria de fazer uma reunião com os alunos pois se havia algo que poderia ser ajustado, poderíamos ajustar.

Ela retrucou já nervosa, que não era assim que as coisas funcionavam e que eu teria minhas aulas suspensas. Quando questionei mais uma vez, lembrando a ela que eu  era concursado efetivo, ela bateu a mão na mesa e começou a gritar. Eu me levantei e fui saindo em silêncio, no que ela saiu gritando atrás de mim. Quando cheguei no pátio havia pelo menos cinco policiais, e uma professora cochichou em meu ouvido – pegue suas coisas, vá embora, se você disser qualquer coisa, levantar sua voz, corre o risco de ir preso. Foi por sorte você não ter levantado a voz, pois você só fala alto.

Eu não entendi nada.  Entretanto, nem retornei a sala dos professores para pegar meu material. Apenas saí e desci para a casa dos professores. Naquele dia quase não dormi. De um fim de semana feliz, minha vida parecia que estava sendo transformada no inferno. Quando os professores chegaram a casa as dez da noite, disseram-me que a chefe de Departamento, a professora Denise junto com o Coordenador do Curso de Pedagogia, Professor Sebastião, estavam montando um processo administrativo para me afastar da sala de aula, que teriam ido a todas as turmas e realizado uma avaliação para fundamentar as supostas reclamações dos alunos contra minha pessoa.

Eu fiquei incrédulo. Não poderia ser. Eu tinha certeza de que a maioria dos alunos gostavam de minhas aulas. Quase não dormi aquele dia.  No outro dia, as nove horas da manhã, o colegiado da faculdade já realizava a primeira reunião para discutir os supostos problemas envolvendo minha pessoa. Eu me lembro do professor Anderson chegando na hora do almoço e dizendo : - Olha, hoje a tarde terá uma nova reunião. O colegiado está dividido mas vai afastar você da sala de aula.

Pensei que eles não fariam aquilo, tamanha era a loucura. Eu era concursado, nomeado, efetivo. Não poderia ser daquela forma. Parra minha incredulidade, quando cheguei na faculdade a noite, fui chamado na sala da Direção  Pedagógica que era ocupada pelo Professor Alzair e recebi o comunicado que eu havia sido afastado de minhas funções pedagógicas e que dali em diante eu não teria aulas, e teria que me entender com a FESG ( Fundação de Ensino Superior de Goiatuba). Explico. No regimento da faculdade havia uma anomalia. O colegiado tinha autonomia pedagógica mas não tinha autonomia administrativa, então, tecnicamente, a Direção Acadêmica poderia afastar um professor de sua funções mas não tinha poder para demiti-lo. 

O professor Alzair Eduardo Pontes, comunicou então que eu estava fora do quadro de professores da FAFICH ( Faculdade de Filosofia e Ciências humanas de Goiatuba), que doravante não precisava mais comparecer e que meu problema deveria ser resolvido com a FESG , cuja presidente naqueles momento era a Advogada,  DR, Talita Hayasaki. Peguei a cópia do processo que ele me entregou e fui direto a sala da presidência. Quando lá cheguei, a presidente me recebeu e disse: - Olha professor, estou ouvindo esta história pelos corredores, ainda não fui informada oficialmente. Pelo que sei o seu processo ainda não foi nem enviado para a presidência pelo protocolo. Se o diretor o afastou de suas atividades, o senhor fique livre para ir pra sua casa, e assim que eu tomar conhecimento da situação e analisar eu o chamarei para tomar uma posição.

Naquela altura, eu já estava me sentindo demitido. E eu sofria. Tinha alimentado a esperança de trabalhando ali, concursado, efetivo, fosse o degrau que precisava para realizar meu grande sonho de cursar o doutorado em educação e futuramente fazer o curso de direito. Sim, eu alimentava que talvez aos 45 ou 50 anos, eu ainda pudesse até mesmo ser aprovado em um concurso para a magistratura. Na quarta-feira, o colega José Hidasi ( in memoriam) retornaria para Goiânia, e então retornei de carona com ele. No caminho, ele me disse uma coisa que só agora passa a fazer tanto sentido para mim, mas infelizmente ele já não está mais entre nós para que eu pudesse questioná-lo nos detalhes. Ele disse:

- Professor, eu não quero me envolver nesta confusão que armaram para o senhor, mas eu acho que o senhor precisa de um advogado. Estão armando para o senhor e vão lhe demitir. Procure um advogado ainda esta semana, e quando retornar para conversar com a presidente da FESG, já tenha em mente qual advogado vai cuidar de tudo isso. Eu vi o seu processo, e se forem demitir professor pelo que vi ali, terá que demitir 99% dos professores da faculdade.

Naquela época eu não compreendi direito o que ele tentava me dizer. Minhas emoções, sentimentos estavam todos confusos e alterados. Eu não entendia a razão daqueles acontecimentos, não encontrava motivos em meus comportamentos que justificasse tamanha dureza de tratamento. Chegando em Goiânia, o professor me deixou no terminal Isidória, e antes mesmo de ir para minha casa liguei para a namorada. Eu disse que tinha algo importante a dizer, e que queria dizer logo, se ela pudesse vir. Eu estava tão desolado que não tive a ideia de sentar em um banco de praça, ou em uma mesas de bar,, sentei ali mesmo, na primeira calçada que avistei.

No ano de 2004, havia uma floricultura bem em frente ao terminal, a esquerda da rua que passava em frente ao supermercado. Fiquei ali, sentado, desolado. Quando a namorada chegou e parou o carro, era um gol branco, antigo, o chamado gol bola. Encostei na porta e  ela perguntou: - Não entendi, pensei que você trabalharia a semana inteira, mas o que era tão urgente que não poderia esperar até a noite, ou até amanhã? Estou vindo do trabalho.

Respondi que tinha sido demitido. Ela, incrédula, retrucou – Como assim demitido? Você não é concursado, efetivo?

Respondi que sim, e que nem eu entendia, mas tinha sido demitido e que os planos de casamento teriam que ser adiados. Ela se desesperou, disse pra eu não procura-la nunca mais e foi embora. Fiquei ali sentado vendo os carros passarem. Depois de uns trinta minutos ela retornou, parou o carro, e disse – Entra, quero entender esta história, pois ninguém concursado é demitido assim de um dia para outro.

Fomos para a kitinet onde eu passava os fins de semana em Goiânia. Fizemos lasanha pré-pronta, jantamos enquanto eu contava toda a história. Ao final, ela me disse: Você vai lutar pelo seu emprego, e se você ainda quiser vamos nos casar.  Lembra-se do que você me disse no dia que me pediu em casamento? Que juntos seria impossível passarmos fome? Então, está valendo. Nós vamos continuar juntos e vamos nos casar. E este fim de semana mesmo, vamos começar o curso de noivos como combinamos, olhar igreja e seguir em frente.

Então, recobrei um pouco minhas forças. No dia seguinte, liguei pra uma colega que estava concluindo o curso de direito e pedi que me ajudasse a arrumar um advogado. Ela disse que estava fazendo estágio em um escritório e que conversaria com eles sobre a possibilidade deles pegarem minha causa. Tudo fazia parecer que seria uma causa rápida, dado a estranheza da demissão, e com esta esperança retornei para a Goiatuba no Domingo a tarde.

 

Sonhos possíveis.

Eu tive a vida toda, ao menos dois sonhos que mantiveram acesas minhas esperanças de viver: 1. Construir uma família, 2. Ser um  homem público, como professor, pesquisador, político que fizesse a diferença na  sociedade. Ao retornar para Goiatuba naquele domingo a tarde eram estes pensamentos que permeavam minha mente. Eu não poderia desistir. Ao comentar na viagem com o Professor José Hidasi sobre estes sonhos, ele me alertou, do alto dos seus vinte anos a mais de vida que possuía, de que eu deveria tomar muito cuidado com o que sonhava. Segundo ele, eu estava vivendo um momento já ímpar na vida. O mestrado me dava uma posição social que estava e me colocava acimada da média do que a sociedade aceitava para uma pessoa que vinha de baixo como eu.

Segundo ele, pessoas idealistas e que se preocupavam com o bem comum não eram as mais queridas da sociedade. Citou exemplos como Mandela que foi preso e tantos outros. Afirmou taxativamente, que a chegar em Goiatuba eu deveria esquecer minha competência técnica, meu compromisso político com a educação e deveria buscar entender os reais motivos pelos quais eu estava sendo afastado. Ele foi a primeira pessoa a dizer que via na situação uma perseguição inusitada e sem motivos. Quando cheguei a Goiatuba comentei e questionei o Professor Ivaldo e ao Professor Anderson, quanto esta linha de raciocínio, no que fui dissuadido de ver naquela situação uma possibilidade de racismo, xenofobia ou perseguição gratuita. O máximo que opinaram era que sim, que Goiatuba consistia em uma cidade conservadora e as pessoas ali não viam de forma tranquila que um negro saído de não sei onde começasse a dizer o que era certo e errado para o bem  comum.

Tais conversas não foram suficientes para que eu entendesse o que estava acontecendo. Naquela época eu tinha descoberto as leituras orientais do confucionismo, budismo, hinduísmo, xintoísmo, etc. Estava fazendo um curso de Reiki para o qual tinha sido convidado por uma mestra em Goiânia. Gostava e sentia prazer na meditação e procurava meditar todas as manhãs. O contato com as religiões orientais e o aprendizado da meditação me levaria do Reiki, no qual me tornei Mestre, ao estudo do esoterismo e do misticismo, em um tempo no qual minha religiosidade se restringia ao cristianismo com práticas católicas e kardecistas. Talvez, tenha sido a espiritualidade que não permitiu que eu visse tanta maldade nos seres humanos que me rodeavam. Eu estava ainda preenchido pelo desejo de salvar as pessoas, e a acreditava quase que numa bondade inata que as leituras de Satre, Niestche, e toda filosofia ocidental não tinha sido capaz de me fazer reconsiderar.

De outro lado, as leituras de Davi Ricardo, Loke, Kant, Hegel, que me alertavam para o individualismo, o egoísmo humano e  a dualidade  parecia algo a ser combatido. Talvez ainda a forte influência sofrida pelo contato com as obras marxistas entre os anos de 1996 a 2004, e um sonho nato de construir um paraíso na terra, impedia que eu visse uma lição muito simples na cidade de Goiatuba – Havia ali uma ignorância profunda, uma carência cultural e de conhecimento na classe dirigente que era quase intransponível e o que os regia era o egoísmo,, o interesse próprio, a ganância pelo poder e pelos prazeres da carne.

Naquela época presidia a FESG, Fundação de Ensino Superior de Goiatuba, a Jovem Dr. Talita Hayasaki. Foi uma longa conversa. A jovem presidente, de forma descontraída inquiriu-me sobre os mais diversos assuntos. Apenas anos depois percebi que aquela não tinha sido uma conversa amigável e sim uma quase audiência judicial.  Senti-me respeitado e respondi todas as questões de coração aberto. Eu, também,, não tinha nada a esconder. Depois de mais ou menos uma duas horas ou mais de conversa, a Doutora abriu o processo sobre a mesa e disse: Isso é o que o professor Alzair me enviou de você. Tecnicamente eu deveria tomar alguma providência. Eu não posso forçar o Professor Alzair a receber você de volta no corpo acadêmico da faculdade, mas também não vou lhe demitir. A saída pra você é tentar conversar com eles mais uma vez, e se não der entre na justiça e busque seus direitos. Eu, de minha parte, não farei nada nesse processo, por que não vou colocar minha carreira profissional numa situação que está claro que existe algo que não consigo ver. Não vejo o senhor incapaz de assumir a sala de aula, e aqui não tem os requisitos legais para que o Senhor seja demitido.

Dezoito anos depois, procurei a doutora para conversar sobre o processo. Ela repetiu as mesmas coisas. Que já fazia muito tempo, mas se lembrava  bem que quando pego o processo e começou a ler, pensou que ali tinha “angu de caroço”, e que não havia nada que pudesse comprometer a minha carreira como docente naquele processo.

Eu confesso, revendo as memórias, que fiquei decepcionado com aquele encontro pois sai daquela sala, naquele fatídico ano de 2004 com a sensação de que minha vida estava tomando um rumo que eu não compreendia. Segui os conselhos e busquei dialogar com o Diretor, professor Alzair Eduardo Pontes, mas todo esforço foi inútil e infrutífero. Retornei a Goiânia com o processo na pasta e muita tristeza para começar uma luta que até o presente momento não acabou.

Naquele dia, meu idealismo e meus sonhos foram o aporte que mostrou a Doutora Talita minha personalidade. Eu tinha sonhos, sonhos de um mundo melhor. E trabalhava, vivia, falava, estudava, sempre com o mesmo objetivo de tornar o mundo um lugar melhor para se viver. Eu era sincero em minhas ações, em meus pensamentos e em minhas palavras.

 

O interrogatório.

O primeiro encontro no escritório de Advocacia foi um terror. Eu me lembro de ter saído de lá me sentindo um criminoso de tão cruel e doloroso foi o interrogatório ao qual fui submetido. Tratava-se de um escritório “Sariedine, Advogados associados”. Fui recebido pela estagiária, Dr. Suelene que pegou o processo que e foi para uma sala reunir-se com os advogados. Depois de quase duas  horas fui chamado na sala. O que ficou em minha memória foi um terror em série. Parecia uma daquelas situações onde o criminoso é quase que torturado para admitir um crime que não cometeu.

Os advogados entreolhavam-se incrédulos, e sem querer acreditar que eu teria sido demitido pelo que estava ali naquela pasta. Todo tipo de pergunta, hoje para mim,, ofensivas, me foram feitas. Chorei naquele dia. Já havia sofrido perseguições antes e em situações que exigira de mim força para manter meus princípios e não ceder argumentos que pervertem a realidade e corrompem a alma de um ser humano, mas nunca havia sido acusado diretamente, questionado, pressionado sobre eu ter feito ou não coisas erradas daquela maneira.

Ao final, o Dr. Francisley Nery  assumiu o processo. E então fizemos a primeira viagem a Goiatuba. No caminho, acompanhado da Estagiária, o Doutor afirmou que antes mesmo de protocolar o mandado de segurança iria na faculdade para ouvir o diretor e até mesmo tentar uma solução amigável, dado que segundo eles, não havia motivos nos documentos que ensejasse minha demissão. Assim fomos. Todo esforço de diálogo foi infrutífero e inútil perda de tempo. Entretanto, após conversarem com o diretor e com a presidente da FESG, eles se convenceram de que se tratava de alguma rusga particular e pouco importante, e que entrar com um mandado de segurança seria a solução. Disseram que seria uma coisa rápida, que em no máximo trinta dias o juiz daria a liminar e poderia retornar as funções. Assim foi feito. Entretanto, assim que foi dado entrada no processo, ouvimos de alguma pessoas que jamais seria julgado, ,que o juiz estava “nas mãos do prefeito”. Embora diversos escândalos apareceram nos anos seguintes, nunca fui atrás de saber se o  juiz era corrupto ou não, mas uma coisa é fato; O juiz da época, Doutor Edson, não julgou a liminar e nem o mandado de segurança que só foi julgado três anos depois e pelo Juiz Doutor Leonardo Aprígio Chaves.

O doutor Edson não julgou o processo. Recentemente, investigando para entender por que um juiz que ganha tão bem, poderia se recusar a julgar um mandado de segurança, encontrei uma explicação que pode ter alguma lógica. O Doutoro Edson faz parte de um grupo de sete  homens que fundaram a Maçonaria na Cidade de Goiatuba, e como o Alzair, principal mentor do processo contra mim e até hoje, um trabalhador árduo para que eu não ganhe o processo seja maçom, talvez esteja ai a explicação.  Na época que cheguei a Goiatuba, o prefeito era Godofredo. Busquei documentos da época, como edital do concurso para o qual fui selecionado e não encontrei.

Alzair Eduardo Pontes tinha  muita influência na época, tanto que se gabava pelos corredores de ter derrubado três presidentes da FESG. O poder dele só diminuiu com a ascensão de Marcelo Coelho como prefeito e de Cleiton Camilo para presidente da FESG. O Alzair esteve envolvido em diversos outros processos na Faculdade, e até mesmo houve um processo no qual havia acusações  de falsificação de assinaturas. Tudo isso se transformou apenas em memórias. Quando o Fórum pegou fogo no ano de 2015, todos os processos que correram na faculdade bem como os conteúdos foram queimados.

Eu sempre me pergunto se devo acreditar na confissão feita pelos supostos e condenados criminosos que colocaram fogo no fórum. Grande parte dos processos nos quais foram ateados fogo eram da fazenda pública e portanto tinha a prefeitura como parte, ou a Faculdade. Assim que  o fogo foi ateado, o fórum passou a funcionar, justamente no prédio da faculdade. Na época, estava meio distante do processo, e antes mesmo que o advogado me procurasse, pessoas de Goiatuba me alertaram que corria o boato de que eu não ganharia o processo nunca mais por que o meu processo tinha sido queimado e nada mais existia que pudesse documentar a questão. Felizmente, eu tinha cópia de diversas partes do processo em casa, e assim, o processo foi reconstituído.

Da instalação do processo ao o interrogatório na sala do Advogado deixaram marcas profundas em mim. Marcas terríveis o suficiente para que eu me tornasse solidária a pessoas que fazem loucuras quando injustiçadas. É difícil viver com uma marca tão terrível. Abala os sentidos, a moral, a autoestima. E fere a alma.

Sobre Juízes que não julgam o processo.

O que fazer quando se tem um processo que já dura quase vinte anos? Ainda é possível acreditar na justiça? Refletir sobre meu processo tem me feito pesquisar sobre o judiciário brasileiro e, principalmente o judiciário goiano. Hoje, já sei quase de cor o nome de todos os desembargadores, suas biografias, juízes substitutos e das comarcas, e suas biografias, bem com a lista de antiguidades das entrâncias, inicial, intermediária e final. Estou quase convencido que o maior erro que cometi na vida, foi ter buscado o socorro da justiça, neste processo de reintegração. A duração deste processo mostra que não se deve confiar na justiça, principalmente por que no Brasil, ter seu nome em um processo judiciário é motivo de desonra. A maioria da população, por ignorância, não faz diferença entre quem está processando ou sendo processado, entre impetrante e réu. Caso tenha o nome em algum processo você já passa a ser naturalmente visto como encrenqueiro.

Talvez o Brasil, seja um dos poucos países, no qual buscar a defesa dos direitos por meio de acesso ao judiciário seja um verdadeiro demérito. Eu particularmente, desde que dei entrada ao processo me sinto como em uma prisão. Sem falar que tive de ouvir de pessoas envolvidas no processo que eu jamais ganharia o processo, que tinham amigos e trânsito no judiciário, e que se eu conseguisse, depois de recorrer ao STF, o direito ao precatório, talvez meus netos recebêssemos os valores, mas que reintegração eu não conseguiria mais nem morto. As pessoas que tem poder e dinheiro tem total segurança de que a Justiça vai estar sempre do lado deles, e que mesmo que eles estejam errados jamais perdem a causa.

Desde que o processo foi instalado, no ano de 2004, o processo passou pelas mãos de cinco juízes, em um espaço de 20 anos. Destes apenas um juiz decidiu de forma terminativa no processo, os demais, deram apenas despachos,  decisões que não resolveram as questões de fato do processo. O primeiro juiz que poderia ter decidido no processo, se chamava Edson, e, não me lembro o nome dele completo por que ele apenas negou a liminar, não deu nenhuma decisão no processo e não se pronunciou em nenhuma outra hipótese. O processo, que requeria uma liminar de reintegração e readmissão ficou nas mãos dele por três anos, até que ele foi aposentado.

Em seguida, decidiu no processo, o Doutor Leonardo Aprígio Chaves, que concedeu a reintegração e a sentença que ora se encontra em fase de cumprimento. Este fato aconteceu no ano de 2009. Logo depois, quando a sentença estava discutindo os valores, ele foi transferido para Goiânia. De 2010 a 2016,  não consegui achar os juízes que trabalharam na vara cível de Goiatuba, pois, tendo o processo sido queimado no incêndio, não tem como identificar por meio do processos e dos movimentos no  mesmo, qual juiz ficou responsável.

No ano de 2016, após o fogo, o primeiro juiz que assumiu o processo foi o Doutor Marcos Vinicius. O processo teve cinquenta movimentos, em um espaço tempo entre 2016 e 2019, foram proferidos oito despachos, e tordos mero expediente, nenhuma decisão. O mais curioso é que neste espaço tempo o fórum funcionava no espaço da faculdade, no prédio da faculdade, e várias intimações, a escrivaninha alega não ter sido capaz de intimar a FESG ou a prefeitura, por dificuldade de encontrar o Presidente da FESG (     que trabalhava no mesmo prédio) e o prefeito da cidade. A prefeitura/FESG só foi se manifestar no ano de 2019, tendo perdido diversos prazos, mesmo assim, nenhum decisão foi dada pelo juiz. Ressalte-se que antes do fórum pegar fogo, um juiz anterior determinou que fosse feita uma perícia nos cálculos, uma vez que a prefeitura tinha apresentado uma planilha que divergia da apresentada por mim, por meio dos meus advogados. Paguei,  na época, 750 reais. A perícia nunca foi feita e meu dinheiro também, não me foi devolvido.

Conclui-se portanto, que desde ano 2013, já havia no processo, um valoro incontroverso, tanto que foi designado uma perita para dirimir as  controvérsias. Segundo os juristas consultados, todos são unânimes, que dado ser valores referentes a segurança alimentar, tais valores incontroversos já poderiam terem  sido feito o pagamento a partir do momento que a prefeitura/fesg apresentou a planilha com valores que admitiam ser devidos. Entretanto, nenhum juiz, desde então ordenou os pagamentos desses valores chamados de incontroversos.

No mês de Outubro do ano de 2019, passa a assinar no processo a Juíza Lívia Vaz da Silva. Do movimento 55, até o movimento 74, o nome da juíza aparece seis vezes no processo, que vai até o espaço tempo de outubro de 2020. Nenhum decisão resolutiva é dada no processo, apenas despachos, despachos, despachos.  No ano de 2020, assume o processo o Juíz Paulo Roberto Palludo e que vai até os dias atuais. De outubro de 2020, até a presente data, foi do movimento 75 a 153. Destes movimentos, 25 são movimentos feitos pelo juiz. Destes movimentos, seis tem como rubrica “ Decisões, outras decisões”, mas, em nenhuma delas manda pagar os valores incontroversos. Nega a liminar de reintegração, não decidi o mérito da reintegração e não toma medida nenhuma para os casos seguidos de perda de prazos pela prefeitura/FESG. Duas decisões são mudanças de classe, e as demais são despachos de mero expediente ou intimações.

Quando analise tal movimento do juiz e questionei meus advogados, tomei a decisão, mesmo a revelia da opinião dos advogados, de denunciar o magistrado a Corregedoria e o fiz, o para nada serviu, já que o magistrado argumentou que a responsabilidade era dos advogados, e que se não estivessem satisfeitos, que entrasse com recurso. Então, conversei com meus advogados e eles entraram então com recursos no Tribunal de Justiça – Goiás. O recurso começou a se movimentar junto com o processo original. O que parece que nada adiantou.  O recurso teve início no mês de novembro de 2021, e alguns meses depois, já estamos no mês de abril, a única coisa que conseguimos foi a gratuidade judiciária. E seria cômico não conseguir, dado a precária situação financeira atual. Mas estranho ainda, é quem sem nenhuma explicação convincente, o processo foi arquivado duas vezes, em um espaço de uma semana.

Quando a prefeitura se pronunciou no recurso ao TJ, contratou o advogado, um dos mais famosos e renomados do Estado , Felicíssimo Sena. Imagino que só os honorários dele devem superior aos valores incontroversos do processo, e que tecnicamente eu já poderia ter recebido. Já no processo original, ao menos a um mês atrás, recebi ligação dos advogados, afirmando que o juiz questionava novamente os valores apresentados, que alertava para a possibilidade de multa-los no processo. Avisaram-me de um contrachqeque  acostado no processo que definia meu salário da época. Resolvi então, estudar o processo inteiro, eu mesmo, e o que descobrir me deixou espantado. O alerta do Juiz era baseado em um contracheque falso, apresentado pela faculdade,  mas tão falso, que no contracheque tinha os seguintes dados: Mês, agosto de 2004. Data de admissão: Novembro de 2007. E no conteúdo possuía um diferença salarial do ano de 2014. 

O que mais me impressionou é que o juiz  não viu os erros. Já imaginou?? Acessei rapidamente os dados previdenciários do INSS –  e enviei para os advogados, mencionando, primeiro, o absurdo da falsidade do contracheque, e em seguida, que a contribuição supra mencionada deveria dirimir qualquer dúvida. Protocolada a petição, o juiz apenas intimou novamente a prefeitura a se manifestar, e assim o tempo vai passando, e os direitos de quem necessita vai se arrastando. Eu sinceramente não entendo. Eu pensava que Juízes podem ter acesso aos dados dos cidadãos para dirimir dúvidas, mas, pelo que vejo, não quando uma parte é frágil do processo, e do outro lado, pode se constituir advogado a peso de ouro.

 

Reflexão e autoanálise.

Vaqueiros Urbanos

Zé Geraldo

 

Aquele cheiro de capim gordura
Permanece em nossas mãos
Esse tempo que a gente tá vivendo
Não foi tanto pra nos corromper
Nossa estória sendo escrita por você e eu
Cada palmo dessa estrada um de nós pisou
Nossa sombra projetada no espelho
Dessas águas se cristalizou
As porteiras trancam ruas, fecham avenidas
Mata-burros e cancelas guiam nossas vidas
Primavera já chegou em nossos corações

E nós, pobres vaqueiros urbanos
Com a capanga ainda cheia
De esperança e planos
Acertando o nosso passo
Cavalgando nesse pasto
De concreto e dor
Os profetas do passado
Nos legaram a flor
Nossos olhos muitas gotas
A molhar o chão
Primavera floresceu em nossos corações
Se as porteiras trancam ruas
Guiam nossas vidas
Mata-burros e cancelas abrem avenidas
Nossos filhos vão saber
Que a distância nos atalhos nem sempre é menor

Nossa vida construída entre trancos e barrancos
Nesse frio mundo de ninguém
Pouco importa esse cheiro de vaqueiro
Que a gente tem

 

A história deste processo se misturou com a história da minha vida. E eu demorei muito tempo para ver as ligações, as conexões entre uma coisa e outra. Entretanto, desde o ano de 2018, com a ajuda da minha companheira, passei a ver as coisas de forma mais racional. O primeiro questionamento é que dado a resistência dos juízes de conceder minha reintegração ao cargo, insinua que eu possa ter feito algo grave, que eu seja uma pessoa criminosa, psicopata, má. Nas palavras dela,  não para compreender as pessoas terem coragem de demitir uma pessoa que passou em um concurso sem uma razão verdadeira que justifique. O questionamento que chamou minha atenção foi o fato de que até chegar a Goiatuba eu passei em vários concursos, mas desde então não consegui mais boas colocações. Teria alguma relação entre eu não conseguir me recolocar e o fato dos juízes não julgarem o processo?

Foi assim que eu decidi fazer um curso e me tornar corretor de imóveis no ano de 2018, quando aconteceu um fato  muito estranho. O meu coordenador ou gerente da minha equipe, recebeu uma ligação dizendo que eu estava no stand com minhas mão sujas de graxa. Quando o gerente chegou e pediu para tirar fotos das minhas mãos, achei estranho, mas, tirei também, algumas fotos minhas e enviei para a namorada, que me disse saber que eu não estava com as mãos sujas, pois em chamada de vídeo mais cedo, tinha tido o cuidado de observar se eu estava bem arrumado para o trabalho. Dias depois o gerente foi demitido da imobiliária, e entre vai e vem, acabei também desistindo do trabalho de corretor na imobiliária. Embora tenha sido estranho os acontecimentos, resisti acreditar que todo aquele teatro tinha o dedo de alguém que não queria me ver ter sucesso como corretor.

No ano seguinte, fiz a inscrição em um processo seletivo simplificado para professor na prefeitura de Aparecida de Goiânia. E, para a surpresa minha, e da  minha filha que fez a inscrição, não fui selecionado. Na verdade, tudo indica que os documentos sequer foram analisados. Embora tenha sido tudo muito estranho, não tivemos como contestar, pois a documentação curricular anexada a inscrição simplesmente desapareceu do site do processo seletivo. Em seguida, resolvemos que eu faria o processo seletivo simplificado pela prefeitura de Goiânia. Agora e já desconfiados,  não contamos para ninguém. Fui selecionado em segundo lugar no certame.  Quando assinei o contrato e comecei a trabalhar, na segunda semana, notei um comportamento muito estranho da coordenadora e da diretora. Elas me vigiavam o tempo todo, e nenhum plano de aula que eu apresentava era considerado bom o suficiente. Foi então que resolvi pegar um plano de uma professora, coloquei apenas meu nome e apresentei a elas. O plano da professora tinha sido elogiado e o meu recebeu muitas críticas. A esta altura, questionei elas poro que eu tinha tratamento diferenciado, no que elas negaram, entretanto, ao assinar o ponto, percebi que minha folha de ponto era a  única com anotações de atrasos, de um minuto sequer que eu chegasse atrasado. Fiquei convencido de que existia ali, uma perseguição e que não importa o que eu fizesse, eu seria perseguido até ser demitido. Então, desisti do contrato,, e resolvi dedicar todo o meu tempo a resolver de forma definitiva este processo. Eu entendi que enquanto este processo existir minha vida não vai andar, não vai dar certo e não terei chance em lugar nenhum.

Eu já acompanhava o processo semanalmente, ligando para os advogados toda segunda, e, toda sexta feira desde o ano de 2018,  como mecanismo de tentar agilizar a situação. Também, passei enviar e-mail para a escrivaninha toda a vez que a prefeitura não se manifestava no prazo, pedindo que eles expedissem uma certidão. No ano de 2021, já tinha intensificado este trabalho e observação, o             que me levou, mesmo sem o apoio dos advogados a reclamar diversas vezes, na ouvidoria e fazer uma denúncia na corregedoria. Questionado pela minha companheira/namorada passei a fazer uma autoanálise profunda sobre o o que eu poderia ter feito na vida, para despertar o ódio tão profundo de alguém. O que eu poderia ter feito para que uma pessoa pudesse se dedicar de forma tão cotidiana a tentar evitar que eu tivesse chance de servir a sociedade.

Em busca de respostas, passei a conversar com todas as pessoas com capacidade de analisar o processo e, de forma humilde pedir ajuda. Advogados, pessoas com poder na sociedade, presidentes de partidos políticos, vereadores, deputados,, etc. Embora a maioria deles mostrassem boa vontade e reconhecesse minha capacidade, qualificação,  habilidades etc, ninguém se propôs a abrir caminhos reais para que eu pudesse servir a sociedade e consequentemente suprir meu sustento com maior qualidade de vida. Continuando esta jornada, resolvi ler todos os artigos meus publicados em blogs,, jornais, etc, minha participação nas direções partidárias do PC do B, e do Cidadania 23, para compreender e identificar, caso exista alguém poderoso com capacidade de influenciar juízes, desembargadores, prefeitos, como o único intuito de manter minha vida desorganizada, como eu poderia fazer para resolver a questão. Nesta  busca, ainda não logrei êxito, mas muitos outros acontecimentos estranhos começaram a fazer sentido, como por exemplo, o veto do Vice-Governador Lincol Tejota ao meu nome para ser membro dirigente do Cidadania, e candidato a vereador no ano de 2020.

Relendo meus artigos, e eu escrevi muito neste blog, bem como no Jornal Opção e no Diário da Manhã,, não tenho dúvida de que sempre tive uma postura dura, radical em defesa da educação, em defesa de um governo que privilegie desenvolvimento humano, a democracia, e mais ainda,, que se preocupe em não  permitir nenhum cidadão morrer de fome. Os artigos que escrevi sobre Marconi Perillo, Ronaldo Caiado, Alcides Rodrigues, mostram bem isso. Também, nunca me privei, sempre que tive oportunidade, de combater todas as formas de preconceito, racismo, etc. Então, se utilizar o livre direito da liberdade de expressão for pisar  no calo de alguém, é preciso perguntar qual corrupto eu não pisei no calo.  Escrevi sobre a operação Monte Carlo,  e sobre todos os demais escândalos de corrupção do estado. Ninguém foi poupado. Participei de forma direta e indireta das lutas em defesa da educação. Ocupação da câmara pelos professores, eu estava lá nos bastidores, articulando junto ao Doutor Joaquim, e Vilmar Rocha,, auxiliares de Marconi para que não se deixasse a polícia bater em professores. Nos problemas enfrentados por Thiago Peixoto com os professores? Eu estava lá, de dentro do Governo, auxiliar de Vilmar Rocha e dirigente do Cidadania, defendendo que os professores fossem respeitados.

Não foi diferente minha estada em Goiatuba. Também ali, recusei participar do esquema de corrupção que  mais tarde, levaria a  cadeia o prefeito Fernando Vasconcelos. Recebi a proposta de corrupção por duas vezes. Também ali, sempre me coloquei na defesa da qualidade do ensino, da valorização do professor. Há quem diga que eu tenha sido muito duro ao combater a ignorância e a corrupção. Talvez haja uma certa razão nisso. Ainda hoje, e já perto dos 50 anos de idade, tenho pouca paciência e tolerância com a desonestidade, sobretudo quando significa tirar dos mais pobres, os mais fracos, aos que já não tem nada. É o caso desse processo. Até agora, eu considerava abrir mão de lutar pela reintegração, queria apenas encerrar o processo de alguma forma, para minha vida seguir adiante. Agora não mais. Lutarei até o fim. Não importa se vou passar fome, se vou ser ameaçado de morte, se vou ser pressionado a fazer um acordo. O dever dos juízes é julgar nos processos. Eu tenho consciência e convicção de que tenho direito a reintegração e a todos os meus direitos no processo. E o que me deu forças para lutar até minha última gota de sangue foi a entrada de Felicissimo Sena com advogado da prefeitura. Em uma pesquisa rápida pelo portal da transparência, fica claro, que a prefeitura já gastou mais de dois milhões para evitar que eu ganhe o processo nestes 18 anos. Só o Contrato com o Advogado Pedro Paulo Toledo, tem sido em média, 72 mil reais por ano, nos últimos três anos. Felicissimo é advogado famoso, ex presidente da OAB, empresário, sócio da CREDJUR, dono de Shoping em Catalão. Deixar de lutar agora,, seria covardia minha, e homens de verdade, podem ser derrotados, homens de honra podem até serem  mortos, mas nunca serão  covardes.

Caso exista esta pessoa que manipula outras para fechar as portas da vida e da sociedade para mim, esta pessoa precisa saber que enquanto eu estiver respirando eu estarei lutando. E que, mais ainda, se o ódio e a ira desta pessoa, ou destas pessoas for pela razão de eu ter combatido a ignorância e a corrupção, precisa saber que eu tenho orgulho da existência dela. Afinal, ela ou eles sabem que mesmo diante de tantas dificuldades não foram capazes de me corromper.

É provável, que se eu tivesse mais sabedoria na juventude, teria sido mais tático, mais estratégico para evitar determinados sofrimentos, construir um patrimônio e tirar o  máximo de pessoas da ignorância e da corrupção Entretanto, jamais me arrependerei das escolhas feitas. Juízes precisam julgar. A justiça precisa funcionar. E corruptos precisam serem presos. Não é por acaso que todos os prefeitos de Goiatuba, foram processados por corrupção até o atual. Marcelo Coelho, Reinaldo Cândido, Fernando Vasconcelos. E o prefeito atual, desde 2017, apenas, com o meu processo, a análise do portal de transparência parece mostrar que, só com os advogados que atuam no meu processo, já gastou mais de 350 mil reais. Não teria ficado mais barato para a fazenda pública pagar o que me deve, reintegrar ao cargo e me deixar trabalhar? Uma coisa é certa. Existem pessoas que querem me perseguir, que tem medo de ver meu desempenho trabalhando para a sociedade. Isso não deixa mais dúvidas.

 

 

 

Goiatuba – 2004/2010 : Poder, Corrupção e bodes expiatórios.

Cheguei a Goiatuba no último ano do mandato do Prefeito Godofredo Gerônimo. Não conhecia nada da cidade, e fui lá a primeira vez para o processo seletivo simplificado no mês de fevereiro do ano de 2004. Eu tinha recém concluído o curso de mestrado e estava empolgado com a possiblidade de rapidamente entrar para o doutorado. A faculdade tinha poucos mestres. Basicamente, tinha três pessoas com mestrado antes da seleção:  A professora Karine Nunes, Miriam Fábia, e uma outra Professora Karina, vindo do Rio Grande do Sul, para onde retornou no ano de 2005.. As professoras Karine Nunes e Miriam Fábia também deixaram logo a faculdade ao serem selecionadas para o quadro da UFG.

No segundo semestre de 2004, houve o concurso para professor efetivo, no qual fui selecionado e tomei posse no mês de agosto daquele ano. O concurso desde o início foi questionado e cheio de irregularidades. A carga horária dos professores, por exemplo, foi definida apenas anos depois e por medida judicial. A faculdade possuía uma anomalia em seu regimento. A direção Pedagógica tinha autonomia pedagógica, porém não tinha autonomia administrativa ou financeira que era atributo da FESG. Tal anomalia causava transtornos constantes, uma vez que a direção da Faculdade, ( FAFICH) de forma, na maioria das vezes, arbitrária e, sobretudo no mandato do Professor Alzair, modificava a carga horária dos professores causando transtornos administrativos e pedagógicos. Foi em uma destas decisões arbitrárias e em fulcro legal que surgiu o processo que  me afastou da sala de aula em outubro daquele ano.

Quando decidi escrever estas memórias um dos objetivos é exatamente buscar lembrar de todos os fatos que vivi.  Eu sei que não me corrompi, sei que busquei exercer minha função de professor com o maior esmero, então é preciso compreender as razões da rejeição na cidade de Goiatuba. Uma das explicações possíveis seria racismo. Goiatuba é uma cidade de uma elite branca, conservadora, e xenófoba. Isso ficava claro nos comentários que se ouvia nos corredores da faculdade. Entretanto, mais do que a possibilidade de racismo, creio que tenha havido racismo, ,pois diversas vezes, ouvi comentários como “ Quem este negão pensa que é pra dizer o que temos que fazer:? Ou “ Como um negão feio desse jeito  conseguiu fazer mestrado na UFG? – a possibilidade que creio realmente ter complicado a minha situação foi a condição da elite corrupta que dominava o poder em Goiatuba, e, que eu  afirmava em alto e bom som que era contra a corrupção e que corruptos e corruptores eram a desgraça desse país e que deveriam todos estarem na cadeia.

Mesmo com esta postura radical minha, tanto do ponto de vista ético quanto do ponto de vista da defesas da qualidade do ensino, ( Na faculdade havia professores com qualidade didática e de conteúdo sofríveis ), fui nomeado para reescrever o –projeto de reestruturação da FESG/FAICH com o objetivo de ser protocolada no Conselho Estadual de Educação para transformar a FAFICH /FESG em Centro Universitário, acrescentando os cursos de fisioterapia, direito,, enfermagem e no futuro medicina. Era um projeto ambicioso e que fiquei empolgado em participar. Comecei a trabalhar arduamente  no projeto. E quando estava com o projeto pedagógico e estrutura pedagógica pronta solicitou acesso aos dados administrativos e financeiros, para que pudesse avaliar o que a Instituição possuía e o que era necessário adquirir para que o projeto fosse aprovado.

A presidente da FESG , Talita Haiasaki, disponibilizou os documentos, os quais foram colocados em uma sala onde eu trabalhava, analisando os documentos e escrevendo o projeto. Curioso lembrar que estes acontecimentos se deram na mesma semana na qual fui processado e demitido. Recebi os documentos na segunda, fui processado na quarta, e na semana seguinte, a sala que eu trabalha tinha tido a fechadura trocada e estava lacrada, e não me foi dado o direito sequer de retirar meus pertences pessoais. Mesmos os livros da biblioteca que estavam lá por empréstimos em meu nome, só fui ter acesso tempos depois.

Mais curioso ainda é lembrar de um episódio que ocorreu na sexta feira da semana anterior. O Diretor Acadêmico, Alzair Eduardo Pontes havia me chamado na sala da direção e me feito uma proposta. Disse que eu estava tendo uma oportunidade de ouro ao me tornar a pessoa que elaborava  o projeto de transformação da FESG /FAFICH em Centro Universitário, mas que a empreitada só daria certo se eu fosse mais maleável em algumas coisas. Alertou que a corrupção campeava por todo país e que em Goiatuba não era diferente, que ao analisar as finanças da FESG/FAFICH, eu encontraria muitas inconsistências,, mas caso eu não complicasse a vida de  ninguém, seria bem recompensado.

Eu reagi com dureza. E uma pena que eu não tinha a malícia de gravar certas reuniões. Quando interrogado por meu advogado, que buscava razões para eu ter sido demitido de forma tão dura, mencionei estes fatos na época, mas não havia nenhuma prova, nenhum documento que eu pudesse usar para colocar no processo, alegando que aquele processo administrativo era na verdade, perseguição por minha recusa em participar de um esquema de corrupção. Até o presente momento, nunca contei este episódio para ninguém além dos meus advogados.

Tempos depois, diversos esquemas de corrupção vieram a tona na Cidade de Goiatuba. E  desde Marcelo Coelho, todos os prefeitos sofreram processos de improbidade administrativa, sendo que Marcelo Coelho, Reinaldo Cândido, e Fernando Vasconcelos chegaram a ter a prisão decretada, mas apenas Fernando Vasconcelos parece ter sido preso. Na FESG, outros pequenos escândalos estouraram gerando demissões, entretanto muitos destas denúncias e processos foram queimados com o fogo no fórum no ano de 2015.

Referências

MP aciona prefeito de Goiatuba e outros 14 por esquema de desvio de recursos.  https://www.maisgoias.com.br/mp-aciona-prefeito-de-goiatuba-e-outros-14-por-esquema-de-desvio-de-recursos/; Reportagem Mais Goiás, 20/10/2016

Confirmada cassação do prefeito e vice-prefeito de Goiatuba. https://diariodegoias.com.br/confirmada-cassacao-do-prefeito-e-vice-prefeito-de-goiatuba/. Reportagem de Laura Santos Braga. Diário de Goiás, 02/03/2016

TRE cassa mandato de prefeito, vice e 2 vereadores em Goiatuba, Goiás. Reportagem do G1, com informações da TV anhanguera, https://g1.globo.com/goias/noticia/2013/06/tre-cassa-mandato-de-prefeito-vice-e-2-vereadores-em-goiatuba-goias.html, 23/06/2013

Prefeito reassume cargo após nova decisão judicial, em Goiatuba, GO. https://g1.globo.com/goias/noticia/2013/03/prefeito-reassume-cargo-apos-nova-decisao-judicial-em-goiatuba-go.htm,, 25/03/2013

Prefeito e vereador de Goiatuba são cassados por improbidade, mas seguem no cargo. https://sagresonline.com.br/prefeito-e-vereador-de-goiatuba-sao-cassados-por-improbidade-mas-seguem-no-cargo/. Reportagem Sagres Online, 04/12/2010.

Ex-prefeito de Goiatuba é investigado por suposto conluio para frustrar concurso público. https://www.maisgoias.com.br/ex-prefeito-de-goiatuba-e-investigado-por-suposto-conluio-para-frustrar-concurso-publico/, 24/11/2021

 

 

 

O primeiro Martírio ou do retorno a um passado que não teve fim.

A pior coisa de se esperar é ter esperança. E, talvez a pior das coisas de se ter esperança é que significa esperar e crer. Ter esperança é acreditar que alguma coisa muito desejada vai acontecer. A esperança pode ser fundamentada (ou realística) ou baseada em alguma utopia, algo que dificilmente será alcançado. Em sentido figurado, a palavra esperança pode dizer respeito a alguma pessoa na qual é colocado um elevado grau de expectativa. Esperança é uma crença emocional na possibilidade de resultados positivos relacionados com eventos e circunstâncias da vida pessoal. A esperança requer certa perseverança — i.e., acreditar que algo é possível mesmo quando há indicações do contrário. O sentido de crença deste sentimento o aproxima muito dos significados atribuídos à 

O cristianismo que ainda existia em meu coração fazia com que eu tivesse esperança. A esperança ao lado da fé, da caridade, é as três virtudes caras ao cristianismo. Por alguma razão minha crença em um Deus todo poderoso, onisciente, onipresente e onipotente fazia a esperança brotar em meu coração como um riu caudaloso de água pura. Eu tinha esperança. Esperança de que os advogados se dedicassem ao processo, esperança de que o juiz, em detrimento das falas que eu ouvia de que ele era um juiz corrupto e que só fazia o que o prefeito mandava, eu tinha esperança de que ele fosse um homem justo e correto e julgasse de acordo com as leis. Eu nem estava pedindo justiça, mas apenas que a lei fosse aplicada.

Tem uma pessoa que sempre me pergunta como passei por tanto sofrimento e não me tornei uma pessoa amarga, e penso que o  que me protege e me fortalece é a esperança, a fé e a caridade. Nestes anos todos, o Universo sempre tem me provido o necessário para sobreviver e isso me faz acreditar na corrente do bem, embora hoje, eu não tenha mais nenhuma dúvida de que existem homens maus que precisam ser contidos, mesmo que com a força e a violência se for necessário.

Passaram-se trinta dias, - o prazo que o advogado disse que era o normal de um juiz julgar uma liminar daquele tipo – e nada. Depois, completaram-se 60 dias. Já era final de ano, o ano judiciário de 2004 tinha chegado ao fim, e o processo sequer estava concluso para o juiz. Vi que as minhas esperanças não tinham fundamento na realidade, e então, abri-me para iniciar uma nova busca, um novo emprego, uma nova colocação, afinal, tinha um casamento e uma família para construir, e sem falar, - ah,, não contei ainda ao leitor – já tinha uma filha que nascera no ano 2000. Ela já tinha 04 anos, eu pagava pensão e para vê-la teria que viajar por mais de 600 quilômetros. Para um homem que tinha como um dos maiores sonhos ter uma família, ter uma filha fora do casamento já era por si só um sofrimento, estar distante, não poder conviver e agora ameaçado de não ter o necessário para o próprio sustento me apavorava.

O ano de 2005 aproximava-se escorreito e assustador. Precisava de trabalho e as portas pareciam não querer  se abrir. Foi ai que tive a ideia de procurar um contato com o passado. Eu havia sido filiado ao Partido Comunista do Brasil entre 1998 e  ainda estava filiado no ano de 2004. Fui dirigente do partido entre 1998 e 2003, quando vivemos uma divisão dentro do partido, o que me levou a dedicar a vida acadêmica, cuja uma das consequências foi ir para a sala de aula, e fazer o concurso para ser professor em Goiatuba. Quando ocorreu a divisão no Partido Comunista do Brasil, entre 2000 e 2003, eu busquei assumir uma posição de acordo com os meus princípios, o que de forma programática me colocou como aliado de um grupo que sequer gostava de mim como pessoa, composto por pessoas como Denise Carvalho, Gilvane Felipe, Marcos Elias, dentre outros.

As questões que pareciam levar as divergências eram de tática e estratégia de construção partidária. No ano de 1998, Marconi Perillo foi eleito Governador de Goiás, em uma eleição improvável com um resultado totalmente imprevisto que era o Jovem Marconi, um deputado Federal com poucas bases políticas, mas herdeiro de Henrique Santillo, vencer o poderoso Iris Rezende que dominava a política desde os anos da democratização. O PC do B, então, ( na época parecia tática de construção partidária, olhando para trás, era só a busca de empregos mesmo), decidiu por maioria, e com alguma divergência não manifestada publicamente, participar do Governo. O problema é que o perfil “democrático” de Marconi, um visionário e ávido pelo poder, não era de um democrata verdadeiro. De alguma forma, o partido foi induzido a indicar Gilvane Felipe para ocupar a Secretaria de Estado da Ciência e Tecnologia e alguns outros cargos de segundo e terceiro escalão.

Parecia perfeito. A Secretaria de Ciência e Tecnologia parecia se encaixar perfeitamente nos ideias de luta do PC do B ( Partido Comunista do Brasil)., mas era apenas uma ilusão. Não podemos negar que por meio da ocupação ou da indicação deste cargo em nome do partido conseguimos vitória para o povo Goiano, mas, nós, dirigentes partidários pagamos um alto preço que certamente afetou a vida de todos nós. Como Secretário de Ciência e Tecnologia Gilvane Felipe cumpriu o papel de lutar pela criação de uma Universidade Estadual, aprovar leis que destinassem verbas a Universidade, e assim, creio que a maior vitória que teve nossa contribuição direta como partido, foi a criação e fortalecimento da UEG – Universidade Estadual de Goiás.

Como secretário de comunicação da Direção Estadual, participava de todas as reuniões para as quais eram convidados, mas, vindo do interior, demorei em compreender o  jogo da política dentro e fora do partido. Quando cheguei a compreender, a  direção da qual eu fazia parte já estava para ser desfeita, não tinha mais o que pudesse ser feito. Eu passei a fazer parte direção no ano de 1998. Depois de dois anos dando assistência aos diretórios do Nordeste Goiano e levando a mensagem do partido a quem quisesse ouvir, fui eleito delegado representando o Nordeste Goiano, e, eleito membro do Comitê Estadual, para  ocupar a função de Secretario de Comunicação do Secretariado. Era então membro do Secretariado, composto por cinco pessoas, da Comissão Política, composta por 17 pessoas, e do Comitê Estadual.  O Secretariado era composto por: Adalberto Monteiro na presidência; Marcos Araújo, vice-presidente; João Pires Secretário de Organização, Edwiges Carvalho, Secretária de Formação e eu, na Secretaria de Comunicação.  Para compor a comissão política, acrescentavam-se os mandatários ou representantes dos mesmos, e tínhamos a Denise Carvalho, Deputada Estadual, Fabio Tokarski, vereador, e Aldo Arantes como Deputado Federal.

O início do Governo Marconi parecia promissor, entretanto, dois anos depois, a prática da cooptação política, perseguição a adversários, e favorecimento dos poderosos em detrimento dos mais fracos já fazia se notar. Já não havia quase nenhum diferença ente Marconi e Iris Rezende Machado. A prática do poder parecia ser a mesma. No partido, parecíamos ter três grupos distintos do ponto de vista do poder. O primeiro, liderado por Aldo Arantes, e extremamente ligado a direção nacional do partido, era ideológico, e com forte característica de preocupação com o bem comum. Eu fazia parte deste grupo, na minha percepção incluía todos os dirigentes do secretariado e a ala sindical do partido. Era uma turma preocupada com a formação política, com a qualificação técnica e com a valorização dos trabalhadores. O segundo grupo, era liderado por Denise Carvalho e tinha como membros expoentes Gilvane Felipe,, ( ex-marido da Denise), Marcos Elias, Romualdo Pessoa, entre outros. O terceiro grupo, liderado por Fábio Tokarski, e seu aliado Luiz Carlos Orro, tinha uma forte base na área da saúde e entrecruzava com os  demais grupos no meio sindical e na Universidade, sobretudo a Universidade Federal de Goiás.

A unidade do partido se fazia de duas formas básicas. A primeira,  pela ideologia, buscando dar coerência as posições partidárias e de seus membros quanto às políticas públicas, e em segundo lugar  pela repartição dos cargos sobre a influência do partido. Com a eleição de Pedro Wilson para prefeito no ano 2000, o grupo do Fábio aumentou a influência na prefeitura, indicando Luiz Carlos Orro como Secretário de Obras, enquanto que o grupo da Denise, mantinha a Secretaria de Ciência e Tecnologia e os cargos do estado no Governo Marconi; e, a direção e o grupo do Aldo por serem muito ideológico ficaram no limbo,  perdidos entre os dois extremos do pragmatismo político brasileiro. Eu por exemplo, me alinha ideologicamente com a direção nacional, sobretudo quanto a defesa das políticas públicas para os trabalhadores e nas lutas contra todas as formas de preconceito, mas do ponto de vista pragmático e da sobrevivência, trabalhava como assessor de Luiz Carlos Orro na prefeitura/comob, e cursava o mestrado na UFG.  Não tinha como dar certo.

 

 

 

Os Advogados  do Processo  e os Embargos Auriculares.

De minha parte, só tive três advogados atuando em meu processo em minha defesa. Franscisley Nery e Raimundo Rodrigues. De parte da prefeitura, já  houve uma dezena de Advogados, sendo que o mais famoso deles, Felicissimo Sena. Farei neste texto, uma breve análise do currículo de cada um dos advogados e o peso de ouro de cada um deles, para mostrar a influência do dinheiro e do poder sobre a justiça goiana. Além do famoso Felicissmo Sena, Leonardo de Oliveira Pereira Batista, e Leonel Nascimento de Carvalho Júnior.  No Processo original, consta ainda, José Irton de Castro Ribeiro, e Pedro Paulo de Toledo Moreira.

Eu pensava que os advogados em  um processo deveriam apenas conhecer as leis e serem bons profissionais. Aprendi neste processo que os melhores embargos são os conhecidos  nos bastidores da Justiça como “embargos auriculares”.  Os embargos tais não tem nada com a lei, e sim representa a vontade e o poder de uma das partes de não permitir que o processo chegue ao fim, a não ser que esteja de acordo com a vontade deles, não importa os fundamentos da lei. O que vou escrever aqui sobre os advogados, é de conhecimento público e estão nos currículos deles na internet, mas reunidos em apenas um texto, pode provocar reflexões variadas e responder perguntas que não são permitidas serem feitas.

Quem é Felicíssimo Sena?

Este é o Advogado mais famoso do Processo. “OAB-GO 2652
Advogado militante desde 1973, Felicíssimo Sena é pós-graduado em Direito Processual Civil e Direito Agrário. Sua vasta experiência permite atuação também em outros Estados e nos Tribunais Superiores, com muita frequência. Atua em toda a área de atividade do escritório” . Esta definição está na página do escritório do qual ele é o titular. O escritório de Sena Advogados Associados, possui uma tropa de 16 advogados atuando na área judiciária e ainda outros tantos estagiários, auxiliares administrativos etc. É um dos maiores escritórios do Estado. Felicíssimo Sena entrou para advogar no recurso ao TJ Goiás, que fizemos após termos denunciado o Juiz de primeira instância a Corregedoria do Tribunal,  e este argumentar em sua defesa, que se não estivéssemos satisfeitos com as decisões que ele proferia ( na minha opinião nunca decidiu como devia no processo, mas o leitor pode acompanhar a história, pois teremos um tópico dedicado apenas a denúncia feita a ele), deveríamos entrar com recurso na instância superior, o que fizemos.

Felicíssimo Sena foi também Presidente da OAB no estado, por diversas vezes. Na verdade, fez parte de um grupo de advogados que dominou o poder na OAB por mais de vinte anos, o chamado grupo OAB Forte.
Nascido em Ouvidor, interior de Goiás, em 9 de junho de 1946; graduou-se em Direito pela Universidade Federal de Goiás (UFG) em 1973; especializou-se em Direito Agrário e em Direito Processual Civil pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO). Conselheiro federal da OAB por Goiás, Sena é, também, presidente da Cooperativa de Economia e Crédito dos Advogados (Credijur
).

Em reportagem, publicada no site da OAB – Goiás, no ano de 2015, Felicíssimo  Sena, prestigiado pelo então presidente da OAB “Henrique Tibúrcio, é apresentado como membro do Conselho Federal da OAB, mas o que chamou minha atenção mesmo, é que ele é apresentado como um advogado que não apenas, ,diz para os novos advogados como eles devem ser, como então Presidente de uma cooperativa Financeira, é capaz de influenciar o futuro financeiro dos novos advogados que estão em início de carreira.

Felicíssimo Sena também consta como autor de livros publicados  Um Vade Mecum do ano de 2014, e um coleção de três volumes, sobre a Jurisprudência Goiana. Segundo o próprio site da OAB – Goiás,  Felicíssimo foi presidente da Oab, nos anos  de
1987 a 1990, 14/09/1996 a 31/12/1997, 1998 a 2000 e 2001 a 2003.  Além de ter sido presidente por todos estes anos, foi ainda o principal eleitor de outros presidentes como Eli Forte, Henrique Tibúrcio, Enil Henrique, Sebastião Macalé, etc. É portanto, um influenciador poderoso em toda a advocacia goiana, seja nos aspectos políticos e financeiros, onde atua por meio da CREDJUR.

Não só de glórias, porém, vive o famoso advogado. Consta um artigo do também ex-presidente da OAB – Goiás, (https://www.dm.com.br/opiniao/2015/11/historia-do-processo-etico-falsificado-pela-oab-forte/) . Embora, seja claro, que tudo aqui nestas terras goianas termina em acordo, segundo este artigo, o brilhante advogado e escritor nunca ficou satisfeito com o desenrolar da história. E aqueles que foram forçados a fazer acordos, sentem  medo de falar sobre o assunto, querem deixar tudo no passado, ainda que tenham sido injustiçados. Veja que nesse caso a disputa parecia ser entre iguais. Ambos possuíam histórias de luta, ambos tinham sido presidentes da OAB, e ambos eram conselheiros natos da ordem. Parecia uma luta igualitária, mas que ao que tudo indica,, Felicíssimo Sena levou a melhor..

No caso do meu processo, Felicíssimo Sena entra depois de uma série de trapalhadas. Depois do Advogado Pedro Paulo Toledo Moreira, apresentar as contrarrazões ao agravo, a prefeitura contrata o escritório de Felicíssimo Sena, que tempestivamente apresenta novas contrarrazões. Uma questão interessante e que mostra o print abaixo é que antes do Felicíssimo entrar no processo, houve uma tentativa não justificada juridicamente de se arquivar o  processo. Percebi, por que, acessando o processo todos os dias para conferir o andamento, o processo estava arquivado. Questionei os advogados, que entrando em contado com a escrivaninha se desfez o arquivamento, mas no outro dia,  o processo estava arquivado novamente. Questionei mais uma vez, e então, o advogado peticionou um “Feito a Ordem”, que produziu novamente o desarquivamento. Quando houve a tentativa de arquivamento, corria prazo para a prefeitura, e a verdade, é que a prefeitura não tem nada a dizer. No caso da reintegração não existe nenhuma provada da ilegalidade do meu pedido, e no caso dos valores presentes no processo, até mesmo a prefeitura já admitiu a dívida em outras petições do processo, existindo portanto, valores incontroversos desde o ano de 2014 e que juiz  nenhum que passou pelo processo se dispôs a ordenar o pagamento.

 

A leitura das contrarrazões apresentadas pelo Felicíssimo Sena, não apresenta nenhuma qualidade de texto jurídico que possa impressionar, e nem mesmo argumentos que a possa diferenciar das demais petições presentes no processo, o que leva a deduzir que a  única importância da petição poro ele, é servir como instrumento dos embargos auriculares, mostrar o peso da sua história vencedora como advogado e militante. E isso, despertou-me para investigar como profundidade, não apenas a biografia de Felicissimo Sena, como de todos os advogados que advogaram  no processo pela prefeitura, e ainda, me fez decidir investigar todos os acordos realizados pela prefeitura nos últimos dez anos. Estou convicto que uma pesquisas deste porte pode ajudar a entender a justiça goiana e assim dar uma contribuição para entender as desigualdades sociais na sociedade Goiana.

Anexo 1

 

FELICÍSSIMO SENA EXPÕE NO TERÇA-PRÁTICA

 

O presidente da OAB-GO, Henrique Tibúrcio, prestigiou a exposição do advogado Felicíssimo Sena, conselheiro federal e ex-presidente da Seccional goiana da OAB, na edição do serviço Terça-Prática, da Comissão da Advocacia Jovem (CAJ), realizada ontem (25). O evento ocorreu na sala de sessões da sede da OAB-GO. "É uma honra receber um profissional tão gabaritado e com a toda a vida devotada à advocacia", disse Tibúrcio.

À platéia, formada por acadêmicos de Direito e profissionais em início de carreira, o conselheiro federal direcionou várias recomendações. "Acreditem que é possível superar a experiência. E não tenham pressa", ponderou. Ele acentuou que são os advogados que "preparam e modificam a jurisprudência". "Os juízes acatam. Advocacia não é troca de favor. É a busca permanente pela aplicação da lei", definiu. Para finalizar, Felicíssimo Sena defendeu a harmonia entre o Poder Judiciário e a categoria. "De uma magistratura respeitada, temos uma advocacia enriquecida", afirmou.

Ao final, o presidente da CAJ, Enil Henrique de Souza Neto, entregou placa em agradecimento ao expositor. "Depois de várias tentativas, chegou o tão sonhado dia de ouvirmos Felicíssimo Sena", contou Enil Neto. O evento foi prestigiado, ainda, por integrantes da comissão, pelo diretor-tesoureiro da OAB-GO, Enil Henrique de Souza Filho, e pelos conselheiros seccionais Julio Cesar Meirelles, Ludmila Torres, Otávio Forte e Reginaldo Martins.

Sobre Felicíssimo

Nascido em Ouvidor, interior de Goiás, em 9 de junho de 1946; graduou-se em Direito pela Universidade Federal de Goiás (UFG) em 1973; especializou-se em Direito Agrário e em Direito Processual Civil pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO). Conselheiro federal da OAB por Goiás, Sena é, também, presidente da Cooperativa de Economia e Crédito dos Advogados (Credijur).

Opinião

A história do Processo Ético falsificado pela OAB Forte

Diário da Manhã

DIÁRIO DA MANHÃ

10 de novembro de 2015 20:26 | Atualizado há 6 anos

 

diario da manha

 

 

É grande o número de advogados(as) que me procura, querendo saber detalhes do Processo Ético falsificado pela OAB Forte, assunto amplamente noticiado. A extensa divulgação dos fatos na mídia parece que esgota o que pode ser dito. Entretanto, não posso negar as solicitações, principalmente em se tratando de período eleitoral quando que os advogados pretendem tudo saber sobre a Seccional, para bem endereçar seus votos. Por tal razão, entendi por bem relatar aqui toda a história conhecida. Parece que o uso da primeira pessoa (eu) é um tanto pretensioso, razão pela qual a narrativa passa a ser feita usado o nome próprio do relator (Ismar Estulano Garcia).

 

 

Após o falecimento do presidente Eli Alves Forte (1996), em acidente de trânsito,  foi criado o grupo OAB Forte, que administrou a Seccional mais de 20 anos. Com a nova modalidade eleitoral de “chapa batida” toda a administração era composta de integrantes do grupo OAB Forte, sendo a única exceção o ex-presidente Ismar Estulano Garcia que, como conselheiro nato, tendo assento no Plenário com direito a voz e voto, era empecilho para que o grupo atingisse seus objetivos. O ex-presidente estava ciente de sua missão, como único conselheiro de oposição, de fato e de direito. Exercia suas atribuições com dedicação e eficiência, posicionando-se contra tudo que lhe parecia errado.

 

No início de 1999 uns poucos bandidos do grupo OAB Forte decidiram que o conselheiro nato Ismar Estulano Garcia estava atrapalhando a OAB Forte, como representante da oposição. Resolveram excluí-lo do quadro de advogados e, também, do Conselho Seccional, de forma que a OAB Forte reinaria sozinha, sem nenhum fiscal de seus atos. O único conselheiro de oposição deixaria de existir. A forma buscada foi a mais infame que se possa imaginar: atingi-lo em sua conduta ética profissional. Como não existiam fatos autorizadores, resolveram criá-los.

 

Certo dia Ismar Estulano recebeu um telefonema em seu escritório. Parece que interlocutor  era servidor da OAB/GO,  mas não disse o nome e falou que se fosse identificado negaria tudo. Disse para ficar preparado porque estava sendo falsificado um Processo Ético para excluí-lo da OAB como advogado e como conselheiro nato. Esclareceu que os envolvidos conhecidos eram quatro e provavelmente haviam outros. Tal informante ligou mais de 10 vezes para Ismar Estulano.

 

Sem pretender reviver o passado, no ano anterior havia ocorrido o conhecido caso Caixego (desvio de 5 milhões de reais para campanha eleitoral de candidato a governador do Estado). O assunto envolveu vários advogados e mereceu considerável espaço na imprensa. Ismar Estulano, como criminalista, havia prestado consultoria para diversos advogados. A OAB Forte viu ai a possibilidade de prejudicá-lo eticamente. Plantaram notícias falsas em vários meios de comunicações, principalmente jornais, acusando-o de estar envolvido no caso Caixego.

 

Além das notícias “plantadas”,  precisavam de um Processo Ético. E para haver Processo Ético era necessário que um advogado postulasse sua instauração. Não se sabe como, chegaram a Esper Chiab Salum, advogado recém inscrito na Ordem (inscrição n. 14.082-A), residente e domiciliado na cidade de Caldas Novas, que se dedicava à advocacia trabalhista. Após Esper concordar em assinar a representação, ele passou a ser paparicado pela direção do grupo OAB Forte. Foi levado por um conselheiro à reunião do Colégio de Presidentes de Subseções da OAB, em Pirenópolis, onde foram decididos os detalhes da montagem do Processo Ético. Poucas pessoas sabiam e participaram da trama.

 

Redigida e exibida a Representação ética contra Ismar Estulano Garcia, Esper Chiab se recusou a assinar, porquanto as acusações eram muito graves. Para não desistir do plano, os crápulas da OAB Forte retiraram a última folha da Representação e substituíram por outra apenas com a data e local da assinatura, constando como “Caldas Novas, 15 de março de 1999”. No local da assinatura de Esper Chiab Sallum foi lançado apenas um “rabisco” ilegível, em nada parecendo com a assinatura dele (rubrica). A Representação  falsificada fazia referência a “inúmeras matérias publicadas na imprensa goiana”, prática do crime de “patrocínio infiel” e gravíssimas violações ao Código de Ética da OAB, terminando por pedir a “suspensão preventiva” do ex-presidente dos quadros da OAB.

 

Os planos dos criminosos era obter a Suspensão Preventiva de Ismar Estulano Garcia, hipótese em que é previsto recurso com efeito apenas devolutivo, não suspendendo a pena até o julgamento final. Assim, Ismar Estulano ficaria suspenso dos quadros da OAB e, consequentemente, como conselheiro nato da Seccional, até que conseguisse reverter a pena, o que demoraria vários anos, pois tudo fariam para retardar o andamento do recurso. Tal acontecendo, a OAB Forte ficaria livre do único conselheiro de oposição. Vale ressaltar que, realmente, o art. 70, § 3º, do Estatuto da OAB permite a Suspensão Preventiva do advogado em casos gravíssimos, a saber “O Tribunal de Ética e Disciplina do Conselho onde o acusado tenha inscrição principal pode suspendê-lo preventivamente, em caso de repercussão prejudicial à dignidade da advocacia…” E tudo estava ajeitado no Tribunal de Ética e Disciplina para que fosse efetivada a suspensão preventiva. Havendo recurso, não teria efeito suspensivo, conforme registra o art. 77 do Estatuto da OAB: “Todos os recursos têm efeito suspensivo, exceto quando tratarem de eleições (arts. 63 e seguintes), de suspensão preventiva decidida pelo Tribunal de Ética e Disciplina, e de cancelamento da inscrição obtida com falsa prova.”

 

Em 1999 era presidente da OAB GO o advogado Felicíssimo José de Sena. No dia 24 de março, às 17 horas e 32 minutos (final do expediente, com pouco movimento) “alguém” deu entrada na Representação falsificada, no protocolo da OAB. A petição era acompanhada de 11 cópias de recortes de jornais. Para a relator do processo, que recebeu o n. 2.714/99, foi escolhido a dedo o conselheiro Paulo Gonçalves, da Subseção de Santa Helena. O relator designado proferiu o seguinte despacho: “As cópias das matérias veiculadas na imprensa, que tratam do caso Caixego e ornamentam a presente representação (fls. 06 ‘usque’ 16), não têm a devida qualidade de leitura e contexto, pois reduzidas e fragmentadas. Destarte, determino à Secretaria que traga aos autos as páginas dos referidos jornais, a fim de que este Relator possa examinar a integra dessas publicações, sem precisar de lupa. Ao depois, notifique-se o Representado para apresentar defesa prévia, nos termos do art. 52 do Código de Ética e Disciplina. Santa Helena de Goiás, 21 de junho de 1999. Paulo Gonçalves – Relator” (fls. 19V).

 

Foi um grande erro para o plano arquitetado. A Secretaria providenciou a diligência solicitada. As cópias que acompanharam a Representação e as cópias solicitadas pelo relator foram extraídas dos mesmos originais. Não precisa ser nenhum perito documentoscópico  para constatar isto, porquanto em ambos conjuntos de cópias haviam as mesmas palavras sublinhadas, os mesmos vestígios de anotação a mão, os mesmos destaques apontados por “setas” feitas a mão e outros indícios. De tal forma, ficou demonstrado que à Representação foram juntadas cópias de jornais que estavam arquivados na Seccional. Portanto, não restavam duvidas: a representação teve origem na própria OAB/GO.

 

Nos escritórios de advocacia  corriam a notícia da existência de Processo Ético contra Ismar Estulano, apesar de ser sigiloso. Tudo indica que foi a OAB Forte que espalhou a notícia. O Representado foi citado para apresentar defesa prévia (fls. 31), o que fez em 9 laudas datilografadas, acompanhada de vários documentos, relatando a podridão que estava acontecendo na Seccional. Ao mesmo tempo, promoveu Queixa Crime e Ação de Danos Morais contra Esper Chiab Sallum (fls. 41 a 64). A grande surpresa foi quando, na audiência criminal, Esper disse, logo no início, que não havia assinado a Representação, ignorando quem usou seu nome, dispondo-se submeter a Pericia grafotécnica para confirmar suas declarações (fls. 334/335). O Promotor de Justiça (Márcio Lopes Toledo) achou muito grave a ocorrência do fato e requereu instauração de Inquérito Policial para apurar o ocorrido (fls. 336/337). O Juiz Benedito do Prado (12a. Vara Criminal) deferiu o pedido (fls. 338/339). A polícia conseguiu apenas constatar que a assinatura foi falsificada,  sendo expedido o Laudo Pericial n. 14/A1/040/RG 1.968/00 (fls. 382/393). Não foi possível apurar a autoria da falsificação em razão da falta de cooperação da OAB/GO.

 

É oportuno salientar que, não se sabendo exatamente quando, o telefone do escritório profissional do advogado Ismar Estulano Garcia foi grampeado. O grampeamento foi no período do escândalo Caixego. Não foi possível esclarecer quem viabilizou o grampo. Parece que não foi com autorização judicial. Seja como for, o escritório de advocacia é inviolável e o grampo foi ilegal. Ismar Estulano recebeu um telefonema anônimo dizendo que seu telefone estava grampeado. Buscando os serviços de um profissional, foi possível constatar o grampo, que estava na central telefônica (Telegoiás). Entrou com Ação de Constatação, Desativação de “Grampo” e Apreensão de Fitas na justiça (fls.234/236), tendo o juiz da 5a Vara Cível de Goiânia (Wilton Muller Salomão) determinando a retirada do grampo (fls. 238/239). Sobre quem providenciou o grampeamento não foi possível esclarecer. A suspeita recai na OAB Forte, mesmo porque o presidente da OAB GO, Felicíssimo José de Sena, foi a favor do grampo (fls. 242). Ao contrário de defender o advogado, apoiou o grampo ilegal. Para defender seus direitos Ismar Estulano procurou, e obteve,  apoio na OAB do Distrito Federal (fls. 101).

 

A defesa prévia foi apresentada, enfocando principalmente, a falsidade da Representação. Se o relator fosse isento, poderia ele ter aplicado o art. 73, § 2º do Estatuto da OAB, manifestando pelo indeferimento liminar da Representação.

 

Após algum tempo relator do Processo Ético falsificado proferiu o seguinte despacho saneador nos autos: “À míngua de qualquer vício procedimental, dou por saneado o processo. Deixo de designar audiência, pois não foram arroladas testemunhas. Ademais, a oitiva das partes é desnecessária em face dos arrazoados e documentos aportados aos autos. Destarte, tenho por concluída a instrução e, por corolário, abra o prazo sucessivo pelo interessado e pelo representado, após a juntada da última intimação (CED, art. 52, § 4o). Intime-se. Goiânia, 04 de novembro de 1999. Paulo Gonçalves – Relator” (fls. 102). Conclui-se, facilmente, que havia pressa em suspender preventivamente o ex-presidente da OAB.

 

Ciente da conduta no sentido de excluí-lo da Seccional, o advogado Ismar Estulano Garcia, ao contrário de entregar os pontos resolveu enfrentar os picaretas. Endereçou petição ao Conselho Federal, requerendo intervenção na OAB Goiás, apontando os crimes e as irregularidades administrativas praticadas, juntando dezenas de documentos comprobatórios. Compareceu ao Conselho Federal e fez sustentação oral de suas acusações. Ao mesmo tempo, distribuiu cópias do pedido de intervenção, e documentos, aos órgãos jurídicos de Goiás (Faculdades de Direito, Centros Acadêmicos de Direito, órgãos do Judiciário, Procuradoria Geral do Estado, Procuradoria Geral de Justiça, Polícia Federal, Secretaria da Segurança Pública, etc.) e a todas Seccionais da OAB do Brasil. Ao mesmo tempo entrou com ações cíveis e criminais contra diversas empresas de comunicações, em razão das mentiras veiculadas.

 

A reação de Ismar Estulano assustou o salafrários da OAB Forte. Parece que deixaram em segundo plano a tentativa de Suspensão Preventiva dos quadros da OAB e passaram a impedir que as investigações chegassem aos autores da falsificação.

 

Ismar Estulano Garcia bem que tentou fossem investigadas, pela Polícia Federal (fls. 287/291),  as irregularidades existentes na OAB, mas não logrou êxito. Era o tempo que o PT mandava em tudo. O requerimento feito na Polícia Federal foi indeferido. Ismar entrou com recurso administrativo endereçado ao Diretor Geral da Polícia Federal (CPP, art. 5º, § 2º). Ao que consta, por recomendação do então ministro da Justiça, não era para investigar os fatos noticiados. Assim, foi mantido o indeferimento da investigação, conforme decisão proferida pelo delegado de Polícia Federal Elival Santos do Nascimento (fls. 292/293).

 

O projeto dos malfeitores era bastante amplo, pois pretendiam desconstruir a participação de Ismar Estulano em 14 anos de trabalhos na OAB. Seu nome foi apagado de vários locais, valendo citar a placa de inauguração do elevador instalado na sede da Seccional, que foi trocada para excluir seu nome. Enquanto as irregularidades continuavam na Seccional de Goiás, a OAB Forte fazia proselitismo político na mídia que era “Forte na Paz, na Ética e no Trabalho” (fls. 242).

 

Para evitar extravio, Ismar Estulano Garcia requereu a juntada aos autos de diversos documentos que pudessem servir de provas no futuro. Várias petições protocoladas na OAB eram destruídas e não juntadas. Então, foi adotado o procedimento de fazer o requerimento e, após, requerer certidão do requerimento juntado, com base na garantia constitucional de obter cópias de documentos públicos (Constituição Federal, art. 5º, XXXIII e XXXIV b). Assim, os documentos deixaram de ser extraviados.

 

Para se ter idéia da conduta dos marginais da OAB Forte, foi necessário impetrar Mandado de Segurança na Justiça Federal, por obter copia de processo existente na Seccional (fls. 297/302). Apreciando o pedido, o Juiz Federal Carlos Humberto de Sousa, ao deferir liminarmente o pedido,  manifestou “Em primeiro lugar, custa-me acreditar que um processo dessa importância esteja extraviado” (fls. 304/305). 1999

 

Em março de 2000 o relator sobrestou o andamento do processo (fls. 285). Parece que os falsários da OAB Forte, ao contrario de “atacar”, no sentido de suspender preventivamente Ismar Estulano, passaram a se “defender”, impedindo que qualquer investigação chegasse aos autores da falsificação.

 

Em novembro de 2002 Paulo Gonçalves renunciou como relator: “Por questão de foro íntimo, dou-me por suspeito para continuar dirigindo este processo. Encaminhe-se os autos à Presidência a fim de que outro relator seja designado para o carrego. Goiânia, 1º de novembro de 2002. Paulo Gonçalves.” O presidente Felicíssimo José de Sena designou para novo relator Murilo Macedo Lobo, que diligenciou junto à Policia Judiciária para devolução do original da Representação falsificada, que estava sendo submetida a perícia grafotécnica.

 

Em 03 de marco de 2004 o novo relator deliberou pelo arquivamento, manifestando ao final: “…Logo, sem peça acusatória válida e à míngua de despacho determinando a abertura de processo disciplinar, tenho que não há como se prosseguir com o  presente processo, razão pela qual opino pelo arquivamento da representação.” Após as formalidades administrativas o processo falsificado foi arquivado.

 

O processo falsificado foi arquivado. Mas ficou a omissão da OAB em esclarecer quem foram os falsificadores. Deveriam, para salvar as aparências, ao menos tentar esclarecer. Nada disso aconteceu. Pelo contrario, foi criada uma turma para blindar os falsários, impedindo que se chegasse aos autores. Mas isto é outra história.

 

A associação dos Professores da Universidade Católica – Apuc, presidida pelo professor Nivaldo Silva, designou o professor e advogado João Carvalho de Matos  para acompanhar  a Sindicância que deveria apurar a falsificação do Processo Ético (fls. 347). O professor designado cumpriu sua função, cobrando várias vezes providências para apurar a falsificação (fls. 350 e 389). Ocorre que nenhuma sindicância foi instaurada. Na época era presidente do Tribunal o advogado Célio Medeiros Cunha. Ismar Estulano telefonou pessoalmente para ele, relatando a falsificação do Processo Ético, recebendo a resposta que o Tribunal de Ética nada podia fazer para apurar a falsificação.

 

Nas falcatruas praticadas poucos membros da OAB Forte participaram. Alguns tomaram conhecimento e silenciaram, enquanto outros nem conhecimento tiveram. Miguel Cançado não pode alegar que ignorava a falsificação, porquanto Ismar Estulano levou os fatos ao conhecimento do Plenário em reunião do Conselho, quando ele estava presente. Igualmente Henrique Tibúrcio de tudo sabia, pois nomeou relator em uma petição formulada por Ismar Estulano, requerendo providências administrativas. Além disso, liderou uma grande comitiva para ir ao Ministério Público Federal pedir o arquivamento da petição para investigar a falsificação, alegando tratar-se de problema político.

 

Relatada a história do Processo Ético falsificado pela OAB Forte, volto a usar a primeira pessoa (eu). Nos mais de 20 que enfrentei sozinho os fortistas sofri problemas sérios, tanto no aspecto de saúde, como de família, profissional e financeiro. O casamento fracassou, mas sempre contei com o apoio dos filhos. Os clientes diminuíram, em razão da campanha cerrada da OAB Forte contra mim. Alguns amigos me aconselharam a ter cuidado, porquanto eles poderiam apelar para o desforço físico. Não fugi da luta.

 

Um assunto que é altamente lamentável foi o suicídio de uma funcionária da OAB GO, assessora do presidente.  Segundo informações, um dos motivos da trágica conduta foi ela estar sendo constrangida a fazer coisas que não gostaria de se envolver.

 

Sou espiritualista e acredito na lei de causa é efeito. Se a pessoa prática o bem, recebe o bem como resposta. Se pratica o mal, o mal lhe é devolvido. A ação e reação se faz presente em toda existência terrestre, tendo a pessoa o livre arbítrio para fazer o bem ou o mal. Sabe-se que os maus pensamentos envenenam a alma. Na contradição vivida, de perdoar quem me prejudicou, ou procurar vingar, preferi perdoar como pessoa e buscar justiça como cidadão  e representante de uma categoria profissional.

 

No plano pessoal, como advogado de João de Deus (Abadiânia) aproximei-me bastante dele. Atendendo seu pedido escrevi os livros “Curas Espirituais” e a sua biografia (João de Deus – Vida e Mediunidade). Viajei com eles várias vezes ao exterior e para diferentes cidades brasileiras. Demorei 8 anos pesquisando e escrevi “Psicografia como prova Jurídica”. Voltar para o lado religioso me ajudou muito a vencer os infortúnios. Depois que o processo falso foi arquivado veio a depressão, não pelo que aconteceu, e sim pelo que poderia ter acontecido: a total desmoralização profissional. Ainda, convivendo 15 anos comuma doença devastadora, posso dizer que sou um vencedor.

 

Estou empenhado profundamente para que a chapa “OAB que queremos” seja vitoriosa, a fim de que a Seccional volte a ser o que era: democrática, pluralista, respeitada, honesta e preocupada com a ética e os problemas sociais.

 

 

 

(Ismar Estulano Garcia, advogado, ex-presidente da OAB-GO, professor universitário, escritor)

 

Referências :

https://www.sena.adv.br/profissionais/ Home do Escritório Felicíssimo Sena Advogado Associados.

https://files.cercomp.ufg.br/weby/up/113/o/SIQUEIRA__Marcello_Rodrigues._2003.pdf - A LEI E A ORDEM: A FORMAÇÃO DA OAB E A RESISTÊNCIA AO GOLPE DE 64 EM GOIÁS – Dissertação de Mestrado no Programa de Pós-Graduação em História da UFG, 2003.

https://www.oabgo.org.br/arquivos/downloads/Clipping_Final_02703.pdf - Cliping OAB Goiás.

http://gentedegoiatuba.blogspot.com/2009/ Blog gente de Goiatuba.