Nelson
Soares dos Santos[1]
Tenho
lido e ouvido nos jornais de Goiás e do Brasil que no interior do Estado
existem dois tipos de quadros que colaboram na gestão do Estado e do Espaço
Público – O Técnico e o Político. Tal tese ganha força no momento de formar o
quadro de primeiro, segundo e terceiro escalão no início dos mandatos
governamentais e quando começa a se especular mudanças na equipe por um
determinado Governante. Procurarei aqui elencar algumas reflexões que
contrariam o discurso corrente na esperança de contribuir para a melhoria dos
mandatos de governantes de qualquer partido.
O que é “Ser Técnico” e “Ser
Político”
Primeiramente
tornou-se senso comum de que existe pessoas que são apenas técnicos e outros que
são políticos. O interessante é que
aqueles que são taxados como “políticos” carregam na testa a carta de
“incompetentes”, pois, foram indicados por políticos e por isso julgados como
não sendo capazes para ocupar o espaço por mérito.
Na
verdade as coisas são definidas no imaginário de quem utiliza da tese da
seguinte forma: O técnico é aquela pessoa com currículo, qualificação na área,
experiência e capacidade para resolver de forma profissional os problemas da
pasta; o político, em contraposição ao técnico, passa a ser aquela pessoa que
não tem as qualificações que o técnico tem, mas por que indicado por uma grande
força política passa ocupar o cargo ou função.
Diante
desta definição ocorre o primeiro grande equívoco, o de criminalizar a política
quando na verdade deveria criminalizar a ação de alguns políticos, pois ora, se
um político indica alguém que não tem competência para realizar alguma coisa,
por si só, já se cometeu um ato criminoso. O segundo equívoco é querer
demonstrar que os “Técnicos” não são “
Políticos” e portanto não são capazes de agir politicamente ou mesmo de forma
politiqueira e com politicagem. Por estes equívocos muitos governos estão
pagando um alto preço ao contratar pessoas supostamente “técnicas” e, no
entanto vinculados a outros partidos políticos. Isso é feito quase sempre com o
interesse de dividir o partido adversário ou no mínimo enfraquece-lo. Exemplos
recentes são Henrique Meirelles no Governo Lula e Adriana Acorrsi no atual
mandato de Marconi. No primeiro caso o PSDB perdeu um grande quadro que perdeu
a si mesmo enquanto político, e, no segundo perdeu o governo Marconi que por
pouco teve de administrar desgastes pelo retorno do quadro “técnico” ao ninho
“político”.
Na
verdade não é difícil demonstrar que não existe ninguém com competência técnica
que não tenha vocação política por que por si só a competência técnica
significa tomada de posição, escolha diante dos rumos que a sociedade deve
seguir. Um individuo competente e
altamente qualificado é aquele que por conhecer a conjuntura na qual
vive a humanidade e por ter ampla cultura fez uma escolha de um rumo a seguir e
de como governar sua vida, sua carreira; e tomar decisões acertadas diante do
curso da história. Sendo assim, o que sobra para o chamado “político” é tão somente
o lado sombrio, do politiqueiro, da politicagem do campo da política que não é
possível mais permitir estar presente em sociedades democráticas e civilizadas.
O Técnico, e o que deve se esperar
de um gestor Público.
O
caso de políticos que ocupam espaços na gestão pública na “cota pessoal” do
governador ou mesmo aqueles que se julgam acima dos partidos políticos dos
quais fazem parte por sua alta competência técnica devem se lembrar de que
vivemos em uma democracia, e nas democracias modernas não há ninguém que não
esteja obrigado a exercer as qualidades da democracia política. Saber ouvir,
ser educado, agir com honestidade intelectual e agregar em torno de si os
melhores para bem governar o Estado e cumprir junto ao eleitor o projeto
empenhado é obrigação de todos.
E
isso se diz por que a própria democracia moderna é definida por ser o espaço da
gerência dos conflitos e das contradições, e, mais ainda, o poder, mesmo do
governante eleito é temporário, só sendo definitivo o poder de escolher que
está nas mãos do eleitor. Diante disso não é difícil concluir que não pode
existir técnico que não seja político no sentido dado a palavra política pela
democracia moderna. O técnico que não consegue ser um líder político em seu
partido, que não consegue agregar em torno de si pessoas com compromisso
político de definição dos rumos da sociedade é o caminho do fracasso para
qualquer governante na atual etapa da história humana.
Competência Técnica e Compromisso
Político.
A
conclusão é que se queremos exercer mandatos nas democracias modernas para
ajudar a dirimir conflitos, vencer as cries e proporcionar dias melhores para o
nosso povo, todo gestor público deve ter
competência técnica e compromisso político.
A
competência técnica deve ser aqui entendida como uma cultura geral e ampla,
capacidade de liderar, tomar decisões, força de vontade e espírito de justiça
aliada, se necessário, a uma sólida formação profissional na área a ser gerida.
O compromisso político deve ser entendido como uma comunhão de crenças e ideais
com o projeto apresentado ao eleitor pelo mandatário eleito. Compromisso
político que deve significar um profundo esforço para compreender e agir com
justiça diante de aliados e adversários. É por tudo isso que fico arrepiado
quando ouço dizer que determinados quadros são técnicos e outros são políticos.
[1]
Nelson Soares dos Santos é Pedagogo, Mestre em Educação Brasileira, Professor
Universitário, Secretário Geral do PPS metropolitano, Diretor Geral da Fundação
Astrogildo Pereira em Goiás, Membro da Executiva Estadual do PPS em Goiás e
Secretário de Formação Política. Embora apoie o Governador Marconi desde seu
primeiro mandato nunca ocupou cargo técnico ou político, pelo contrário foi
forçado a pedir demissão da Secretária Estadual de Educação de Goiás por
perseguição política na gestão de Raquel Teixeira.
