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quarta-feira, 10 de abril de 2013

Pastor Feliciano e a democracia vilipendiada: De novo , “No caminho com Maikóvski”



Nelson Soares dos Santos[1]
Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada
.

A geração da qual faço parte conhece bem esta parte da poesia que cito acima. Ela animou muitos corações a luta pela liberdade e contra o regime de exceção que se instalou no Brasil para durar 04 anos e acabou durando mais de vinte anos, ceifando milhares de vidas e exilando outras centenas. Para ironia do destino muitos dos corruptos de hoje estavam no meio dos torturados, vilipendiados e exilados. Sempre achei uma grande ironia o fato de Zé Dirceu ter sido condenado pelo Regime Militar e agora condenado pela democracia. Este é um fato sobre o qual muito tenho refletido e buscado bater nas portas que tal chave pode fazer abrir. A verdade, é que fora as ironias e as peças do destino, este poema volta a ser atual, mas agora não apenas esta parte, mas o poema inteiro. Os últimos acontecimentos tem nos desafiado a compreender a dimensão do momento em que estamos vivendo, não de forma  apaixonada e piegas, mas com a responsabilidade de nos perguntar: o que se dirá de hoje, daqui a vinte anos? Como seremos julgados pela história por termos falado ou termos nos calado, e sobretudo como falamos e como nos calamos.
Ah  sim. Todos conhecem e sabem melhor do que eu  quando a velha história se repete. No primeiro dia o PT  afagou-nos com o discurso de que acabaria com a miséria, e nós como crianças os transformamos em heróis. Então eles nos roubaram uma flor do nosso jardim. Há algo mais belo do que a moral e as virtudes? Eles nos fizeram acreditar que todos são iguais, de que todo partido faz caixa dois e nos roubaram a esperança de que podíamos ser melhores do que somos. Ele nos roubaram a Rosa e colocaram em nossos ombros apenas a cruz e uma coroa de espinhos. O mensalão tirou-nos a fé de que pode existir homens públicos comprometidos com o bem estar coletivo e nos fez acreditar que todos chafurdam na mesma lama. E tudo isso foi feito, e nós – uns por que tinha bolsa alguma coisa, outros por que eram aliados, - nós não dizemos nada.
Desde então, eles não se esconderam mais. Na segunda noite pisaram em nossas flores. Pisotearam todos os nossos valores, compraram a mídia, chantagearam adversários, compraram dossiês, criaram programas eleitoreiros, desvirtuaram nossas políticas públicas mais caras, como o financiamento da Educação, a estabilidade econômica; e, mataram o nosso cão. Tiraram o que nos restava de coragem nos incentivando ao consumo desenfreado, peitaram o Supremo Tribunal Federal para proteger homens condenados pela Justiça, colocaram nas casas que governam o país homens corruptos – E nós? Nós não dissemos nada.
Eis que agora nos aparece o Feliciano , o mais frágil deles, tornou-se presidente da Comissão de Constituição e Justiça, chamou os negros de raça amaldiçoada, afirmou que Deus matou Jonh Lenon e os Mamonas Assassinas, Caetano Veloso tem pacto com o Diabo, e tudo que o caracterizou como racista, homofóbico, preconceituoso e reacionário. Ao quebrar a tradição brasileira do Estado Laico, Feliciano arranca-nos a voz da garganta, faz-nos sentir medo,  por que prega o ódio, a intolerância e o medo. E o faz, afirmando defender os valores da família, da religião. Não é simbólico que ele tem a defesa entusiasmada de Jair Bolsonaro, uma vez que o que o move são as mesmas razões pelas quais se instalou o regime militar no Brasil. E por fim, ele chantageia aqueles que outrora lutaram pela liberdade, por que estes agora estão coma cerviz abaixada, envergonhados de terem-se misturados na lama da corrupção, das falcatruas, da roubalheira e da pura falta de respeito a vida e ao ser humano.
A pergunta que fica é: E nós? E nós que não temos pacto nenhum com os senhores deste mundo diabólico e servil? Podemos escolher entre ficar no silêncio do nosso quarto, deixar esta paixão tomar conta de nós, calar os nossos lábios diante e tudo que acontece. Ou podemos parar, pensar, refletir e conhecer as verdadeiras razões que movem estas ratazanas do dinheiro público. Os cristãos devem se perguntar seriamente se querem um homem que faz chantagem, se iguala a ladrões para representá-los. Deve pensar se o respeito a família é superior ao respeito a vida e se é divino a irresponsabilidade do escândalo premeditado.  E nós? Quando tomaremos consciência que esta mídia manipulada que se transformou em uma indústria de lucro e ganho fácil da vida para alguns, de que esta mesma mídia, rouba-nos o direito de pensar, de tomar consciência e encontrar nossas próprias conclusões. Ficamos calados por que temos medo de perder o emprego, a bolsa não sei do que, e vamos nos tornando falsos democratas. Por que embora passemos a repetir a briga maniqueísta entre o bem e o mal nas redes sociais, nossos dedos digitam, nossos lábios repetem, mas o nosso coração estão gritando, milhões de corações estão gritando: É TUDO MENTIRA. É mentira que o Feliciano está defendendo a família e os valores morais da religião. É mentira que o PT ainda tem algum traço de preocupação com o bem comum. Tem muita mentira.


[1] Nelson Soares dos Santos é Educador, Licenciado em Pedagogia pela Universidade Federal do Tocantins, Mestre em Educação ( UFG), membro da Executiva Estadual do PPS, Secretário Geral do PPS Metropolitano e Diretor Geral da Fundação Astrogildo Pereira em Goiás.

Um comentário:

  1. E quanto aos ativistas gays que querem barrar a sua permanência na CDHM, por conta de se verem ameaçados quanto ao Feliciano defender a não legalização do casamento gay, algumas coisinhas que ferem a atual Constituição, mas que certamente o J. Willys se no lugar dele trataria de promover , você tem algo a comentar a respeito?

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