Nelson
Soares dos Santos[1]
Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
A
geração da qual faço parte conhece bem esta parte da poesia que cito acima. Ela
animou muitos corações a luta pela liberdade e contra o regime de exceção que
se instalou no Brasil para durar 04 anos e acabou durando mais de vinte anos,
ceifando milhares de vidas e exilando outras centenas. Para ironia do destino
muitos dos corruptos de hoje estavam no meio dos torturados, vilipendiados e
exilados. Sempre achei uma grande ironia o fato de Zé Dirceu ter sido condenado
pelo Regime Militar e agora condenado pela democracia. Este é um fato sobre o
qual muito tenho refletido e buscado bater nas portas que tal chave pode fazer
abrir. A verdade, é que fora as ironias e as peças do destino, este poema volta
a ser atual, mas agora não apenas esta parte, mas o poema inteiro. Os últimos
acontecimentos tem nos desafiado a compreender a dimensão do momento em que
estamos vivendo, não de forma apaixonada
e piegas, mas com a responsabilidade de nos perguntar: o que se dirá de hoje,
daqui a vinte anos? Como seremos julgados pela história por termos falado ou
termos nos calado, e sobretudo como falamos e como nos calamos.
Ah sim. Todos conhecem e sabem melhor do que
eu quando a velha história se repete. No
primeiro dia o PT afagou-nos com o
discurso de que acabaria com a miséria, e nós como crianças os transformamos em
heróis. Então eles nos roubaram uma flor do nosso jardim. Há algo mais belo do
que a moral e as virtudes? Eles nos fizeram acreditar que todos são iguais, de
que todo partido faz caixa dois e nos roubaram a esperança de que podíamos ser
melhores do que somos. Ele nos roubaram a Rosa e colocaram em nossos ombros
apenas a cruz e uma coroa de espinhos. O mensalão tirou-nos a fé de que pode
existir homens públicos comprometidos com o bem estar coletivo e nos fez
acreditar que todos chafurdam na mesma lama. E tudo isso foi feito, e nós – uns
por que tinha bolsa alguma coisa, outros por que eram aliados, - nós não
dizemos nada.
Desde
então, eles não se esconderam mais. Na segunda noite pisaram em nossas flores. Pisotearam
todos os nossos valores, compraram a mídia, chantagearam adversários, compraram
dossiês, criaram programas eleitoreiros, desvirtuaram nossas políticas públicas
mais caras, como o financiamento da Educação, a estabilidade econômica; e,
mataram o nosso cão. Tiraram o que nos restava de coragem nos incentivando ao
consumo desenfreado, peitaram o Supremo Tribunal Federal para proteger homens
condenados pela Justiça, colocaram nas casas que governam o país homens
corruptos – E nós? Nós não dissemos nada.
Eis
que agora nos aparece o Feliciano , o mais frágil deles, tornou-se presidente
da Comissão de Constituição e Justiça, chamou os negros de raça amaldiçoada,
afirmou que Deus matou Jonh Lenon e os Mamonas Assassinas, Caetano Veloso tem
pacto com o Diabo, e tudo que o caracterizou como racista, homofóbico,
preconceituoso e reacionário. Ao quebrar a tradição brasileira do Estado Laico,
Feliciano arranca-nos a voz da garganta, faz-nos sentir medo, por que prega o ódio, a intolerância e o
medo. E o faz, afirmando defender os valores da família, da religião. Não é
simbólico que ele tem a defesa entusiasmada de Jair Bolsonaro, uma vez que o
que o move são as mesmas razões pelas quais se instalou o regime militar no
Brasil. E por fim, ele chantageia aqueles que outrora lutaram pela liberdade,
por que estes agora estão coma cerviz abaixada, envergonhados de terem-se
misturados na lama da corrupção, das falcatruas, da roubalheira e da pura falta
de respeito a vida e ao ser humano.
A
pergunta que fica é: E nós? E nós que não temos pacto nenhum com os senhores
deste mundo diabólico e servil? Podemos escolher entre ficar no silêncio do
nosso quarto, deixar esta paixão tomar conta de nós, calar os nossos lábios
diante e tudo que acontece. Ou podemos parar, pensar, refletir e conhecer as
verdadeiras razões que movem estas ratazanas do dinheiro público. Os cristãos
devem se perguntar seriamente se querem um homem que faz chantagem, se iguala a
ladrões para representá-los. Deve pensar se o respeito a família é superior ao
respeito a vida e se é divino a irresponsabilidade do escândalo
premeditado. E nós? Quando tomaremos
consciência que esta mídia manipulada que se transformou em uma indústria de
lucro e ganho fácil da vida para alguns, de que esta mesma mídia, rouba-nos o
direito de pensar, de tomar consciência e encontrar nossas próprias conclusões.
Ficamos calados por que temos medo de perder o emprego, a bolsa não sei do que,
e vamos nos tornando falsos democratas. Por que embora passemos a repetir a
briga maniqueísta entre o bem e o mal nas redes sociais, nossos dedos digitam,
nossos lábios repetem, mas o nosso coração estão gritando, milhões de corações
estão gritando: É TUDO MENTIRA. É mentira que o Feliciano está defendendo a
família e os valores morais da religião. É mentira que o PT ainda tem algum
traço de preocupação com o bem comum. Tem muita mentira.
[1]
Nelson Soares dos Santos é Educador, Licenciado em Pedagogia pela Universidade
Federal do Tocantins, Mestre em Educação ( UFG), membro da Executiva Estadual
do PPS, Secretário Geral do PPS Metropolitano e Diretor Geral da Fundação
Astrogildo Pereira em Goiás.
E quanto aos ativistas gays que querem barrar a sua permanência na CDHM, por conta de se verem ameaçados quanto ao Feliciano defender a não legalização do casamento gay, algumas coisinhas que ferem a atual Constituição, mas que certamente o J. Willys se no lugar dele trataria de promover , você tem algo a comentar a respeito?
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