Pelo humanismo. Não à sociedade do medo
Por Roberto Freire*
Um assunto em particular me chamou a atenção nesta semana: a aprovação, na Câmara Municipal de Americana (SP), de projeto de lei de autoria do ilustre vereador Valdecir Duzzi (PSDB), que prevê autorização para que o poder executivo implante detector de metais em escolas municipais.
De acordo com o vereador, o projeto foi motivado pelo aumento da violência nas escolas e a medida visa proporcionar maior segurança aos alunos, professores e funcionários. Ainda que o projeto não seja impositivo e que a implantação dos detectores de metais seja facultativa, prevendo discussões com a comunidade local em cada instituição de ensino, peço licença para manifestar opinião contrária a medidas de tal natureza.
A imposição de câmera de vigilância, catracas, detector de metais, contratação de seguranças e coisas do tipo não representam nem de longe uma solução para casos de violência intraescolar.
A escola, ambiente socioeducativo, precisa refletir a sociedade que queremos construir para cultivar valores nas crianças e adolescentes que serão nela formados. É impossível construir uma sociedade livre, solidária e justa a partir de constrangimentos desde a infância. Catracas, câmeras de vigilância e detectores de metal presentes no ambiente demonstram e exemplificam para as crianças que as pessoas não são confiáveis e devem ser vigiadas. A partir disso, um Estado Policial passa a ser assimilado como o padrão na formação da sociedade humana. A liberdade e a responsabilidade em seu exercício deixam de ser aprendidos e, na próxima geração, serão valores esquecidos.
Apesar de medidas como a que o projeto de lei propõe possam ser vistas com simpatia pela população – que sente que alguma providência está sendo tomada –, elas representam, no fundo, uma violência contra a própria comunidade local, pois se baseiam no medo e na repressão e representam pouco ou nada em termos práticos. Até porque a questão da segurança nas escolas tem raízes mais profundas e complexas e não pode ser reduzida a uma questão pontual, a detecção de metais. Os EUA, por exemplo, possuem escolas e universidades que se utilizam deste recurso, mas nem por isso deixaram de ser o país com maior incidência de ataques de violência inclusive de "serial killers".
A violência praticada nas escolas é fruto de problemas estruturais da nossa sociedade com diferenças e desigualdades exorbitantes e de instituições frágeis particularmente no campo da Justiça com a impunidade campeando quando se trata de punir os que transgridem as leis.
Falta a educação no lar onde os pais estão preocupados demais com a sobrevivência e o ganho material e se eximem da tarefa de impor limites com afetividade. Transferem essa responsabilidade a uma escola que não está preparada para ela.
É necessária também formação específica para que os professores saibam lidar com episódios de violência, inclusive para perceber comportamentos anômalos de estudantes e encaminhá-los a apoio psicológico específico antes de uma explosão.
Em casos de grande repercussão explorados exaustivamente pela mídia, em que alunos invadem escolas armados, atirando contra colegas e professores, uma das hipóteses que aparecem como motivação para o desvio de conduta é o sofrimento de bullyng por parte do estudante transtornado. Essa situação de violência anterior a um ataque deve ser identificada e combatida por meio de psicopedagogos dentro da escola.
As escolas precisam ser ambientes nos quais a criança se sinta confortável e protegida, livre de violência física ou moral, para que possam desenvolver a plenitude de suas capacidades. É o ensino de valores humanistas como o respeito ao outro e à diversidade, e, sobretudo, a liberdade com responsabilidade, que pode criar tais ambientes. Um detector de metais na porta da escola transforma estes valores em pó pelo exemplo contrário.
*Roberto Freire é Deputado federal por São Paulo e presidente nacional do PPS (Partido Popular Socialista)
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