Nelson
Soares dos Santos[1]
Eu ainda me lembro do Professor de História falando na sala de aula das
três questões que fizeram precipitar a Proclamação da República – A questão
Militar, a Questão Religiosa e a Questão Escravocrata. Claro que na
profundidade dos fatos as coisas são sempre mais complexas, mas é interessante
que mais de um século depois estas mesmas questões ganham relevância no debate
eleitoral. O surgimento de uma candidata
evangélica parece ter feito ressurgir as outras questões; e, a verdade é que a
sociedade brasileira ainda não superou nenhuma delas.
Como em 1889, os barões do café andam ansiosos com a possibilidade da
vitória de Marina Silva. Digo, os Barões do Café, não me referindo a banqueiros
ou a quem produz na terra, mas aquela tecnoburocracia estatal que aprendeu a
viver da corrupção e do desvio do dinheiro público. Na iminência de se ter uma
presidente evangélica o preconceito religioso volta a cena. Agora não apenas
com ares inquisitoriais, mas também por meio de boatos de todos os tipos, por
meio do que chamo de um “autoritarismo
difuso” que tenta fazer os mais incautos acreditar que uma vez presidente
Marina Silva vai aderir ao fundamentalismo religioso tão presente em todas as
religiões na sua práxis de governar. É
tão ingênuo acreditar nisso em uma república presidencialista, com a existência
de uma Câmara e de um Senado quanto acreditar em Papai Noel. Na verdade, os
adversários usam o argumento religioso apenas por que sabe que existe na
sociedade brasileira, de um lado um fundamentalismo conservador, e, de outro um
preconceito arraigado a tudo que cheira virtude e se desvia daquilo que os sociólogos
denominaram de “Jeitinho Brasileiro”.
Como em 1889, imagino os militares inquietos nas casernas. Insatisfeitos,
de um lado com o “Modo Petista de Governar”, que só faz lembrar escândalos
sobre escândalos; e de outro com o aprofundamento da democracia que parece não
dar esperanças de uma possibilidade de retorno a um regime de “Ordem”,
apressam-se a militarizar as escolas, aparelhar as universidades quebrando a
autonomia universitária, e pregando diuturnamente por meio dos seus
representantes no Congresso (Jair Bolsonaro é sua maior expressão), a
necessidade do cidadão se defender por meio da implantação de uma ordem
conservadora e anti-democrática. O militarismo no Brasil se tornou uma
ideologia de direita que tem na ordem e
na defesa dos bons costumes seus fundamentos propalados. Entretanto, quando na
prática não se trata de defesa dos bons costumes, mas pelo controle do poder
por uma tecnoburocracia estatal e um conservadorismo patrimonialista.
Na questão racial, desde a proclamação da abolição da escravatura nunca o
Brasil esteve tão envolvido no debate sobre raças. As políticas dos Governos do
PT contribuiu para criar uma espécie de divisão na sociedade. A aplicação
equivocada das políticas afirmativas, o investimento precário na educação
básica aliada as falhas do Estado em prover ao acesso a saúde e segurança fez
crescer entre negros e índios uma ideia reparacionista em detrimento da luta
pela igualdade entre todas as raças e
etnias no interior da Nação. Os mesmos responsáveis por esta situação agora
pregam que Marina perseguirá negros, fechará terreiros de candomblé e outras
sandices mais. Não respeitam, sequer, a força do Estado Democrático e
Republicano Instituído.
Entretanto, o ressurgimento das chamadas três questões não nos traz
tristeza, e, na verdade, nos deixa otimista, com o futuro. PSDB e PT têm estado
sempre em disputa sobre qual deles proclamou a real independência do Brasil. Os
sociais-democratas dizem que foram eles ao estabelecer o Plano Real e a
Estabilidade Financeira. Os Petistas afirmam que foram eles, ao combater a
fome, pagar a dívida externa e criar o Fundo Soberano. Não serei eu o juiz
desta peleja, mas, se eles estiverem certos e a independência real do Brasil
foi Proclamada, chegou a hora de Proclamar a república. Maria será a chance de
termos uma república verdadeira mediando os conflitos, estabelecendo a força do
estado laico, a tolerância a todas as religiões e o respeito e emancipação de
todas as etnias. Vamos então superar de vez tais questões, unir o Brasil,
proclamar a república com Marina Presidente.
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Nelson Soares dos Santos é Licenciado em Pedagogia, Mestre em Educação
Brasileira, Professor Universitário e membro da Direção Nacional do Partido
Popular Socialista.

