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quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Educação e os Programas de Governo: O risco do Autoritarismo


Nelson Soares dos Santos[1]

Já disse e repito: É possível conhecer o futuro de uma sociedade pelo modelo de educação que é colocado a disposição das massas. Neste sentido é importante analisar as propostas de políticas educacionais nos planos de governo dos presidenciáveis e dos governos de Estado, bem como a forma como candidatos a câmara de deputados e ao senado lidam com a questão da educação. E, infelizmente, preciso dizer que não existe nenhum plano de Governo seja no plano nacional ou local que contemple avanços no campo da Educação, pior que isso, a análise de falas e das diretrizes e propostas escritas aponta para um retrocesso, sobretudo na questão da gestão democrática da educação, do modelo de organização, da valorização dos professores e dos processos curriculares.
O primeiro ponto extremamente negativo é que dos presidenciáveis apenas uma candidata ( Marina Silva) apresentou um plano de Governo; os demais apresentaram diretrizes genéricas pelas quais pouco é possível perceber que rumos de fato, as ações práticas ou práxis tomará. O segundo ponto negativo, é que os principais candidatos com chances de vencer o pleito não avançam no quesito “modelo  educacional”. Todos eles apontam para a continuidade de uma escola dualista, qual seja destinada a formar alguns para o mercado de trabalho precarizado e outros para o trabalho criativo.

Dilma, o PT e o autoritarismo Educacional.

A questão mais sensível é o programa educacional do PT. Sensível por que parece democrático sendo autoritário, parece avançado sendo um retrocesso, e com uma massa de intelectuais a defendê-lo de forma cega e bem longe do que pode ser considerada cientificidade. O PRONATEC  e os IFG, já se mostram um novo modelo de educação dualista muito parecido com aquela profissionalização compulsória no nível médio imposta pelos militares no final dos anos 70, e, chocou intelectuais, chegando a silenciar os petistas fanáticos quando Dilma admitiu que Filosofia e Sociologia são disciplinas que poderiam serem retiradas do currículo. Na verdade, o PRONATEC E OS IFG, criaram respectivamente um ensino médio e um ensino superior de segunda classe, que ao lado dos cursos tecnológicos de nível superior preparam mão de obra precária para o mercado deixando a formação humana totalmente em segundo plano.
Pior que isso é o que diz respeito a formação e valorização dos professores. Depois de 12 anos no poder o PT não conseguiu viabilizar o processo de valorização dos professores previsto em lei, sequer conseguindo fazer com que os professores tivessem direito ao piso salarial. A expansão do Ensino Superior e criação das novas Universidades foram realizadas ao custo da precarização do trabalho do professor, e a queda da qualidade do ensino. O autoritarismo está presente em todas as universidades e se tornou coisa comum escândalos até nos processos seletivos docentes, como é possível averiguar diante de uma pesquisa simples nos jornais e na internet.
O tragicônimo, no entanto, ainda está por vir. O MEC, segundo notícias recentes, pretende contratar professores por meio de Organizações Sociais, ( OS). Tal atitude que está sendo estudada para ser implantada por diversos governos estaduais vai ferir de morte a gestão democrática das escolas e Universidades, reinstalando o patrimonialismo e o clientelismo onde ele perdeu forças. Tudo isso está além das forças partidárias e só pode ser explicado pela vitória do capital na velha luta capital x trabalho tão ignorada por intelectuais e jornalistas. A ideia de que não existe mais esquerda favoreceu a precarização do trabalho e tal precarização está chegando ao trabalho intelectual, no caso brasileiro, de uma forma que nunca se fez em nenhum outro país do mundo. O capital assume sua forma mais selvagem, mais cruel e devastadora.
Aécio e suas diretrizes Genéricas.

No programa de Aécio pouco é possível falar de Educação. Primeiro por que o mesmo pontou apenas diretrizes genéricas, e segundo, por que ao falar sobre qualquer tema ele invoca a experiência que possui. Sendo assim, a única alternativa para imaginar como será a educação no Governo Aécio analisando a educação de Minas Gerais. Ali, os professores sofreram um processo de precarização e desvalorização sem precedentes, implantou-se a meritocracia e não é segredo que muito se perdeu no processo de gestão democrática. Um modelo semelhante foi implantado em Goiás, onde uma das primeiras medidas foi a retirada da titularidade dos professores, implantação de meritocracia e bônus de produtividade.
Outras medidas podem ser vistas no retorno a um conservadorismo curricular que retira a autoridades dos professores, impõe a aprovação automática dos alunos e premia aqueles alunos, teoricamente, os melhores. Dentro deste escopo, encontra espaço o processo de militarização das escolas do Ensino Fundamental e Médio, e são estas escolas militarizadas, que tem como principal mérito a implantação de um regime militar no interior da escola, implantando uma ordem rigorosa e cruel, o principal mérito pela qualidade do ensino alcançado nestas escolas e as melhores notas no IDEB. O que não se vê é que tal militarização está produzindo cidadãos não-pensantes, autoritários e cruéis; e, espalhando na sociedade um autoritarismo difuso e um fanatismo preconceituoso e arrogante.

Marina e dubiedade de um Programa.

Se Aécio não tem programa e precisamos olhar para o que ele fez; Dilma não tem programa e temos de olhar para o que estão sendo feito; Marina Silva tem um programa, entretanto o fundamento do mesmo não avanço no enfrentamento da degradação da força de trabalho do professor, sua precarização frente ao capital, tão pouco quanto o aspecto da Educação dualista. Então, qual seria a vantagem de votar em Marina? 
Os fundamentos do plano de Governo de Marina ainda não estão postos, o que ela chama de “Nova Política” é um novo que ainda não germinou na sociedade. É, pois uma proposta de governo em Disputa. Marina se propõe a ser a mediadora de um amplo debate nacional quanto aos rumos que o país pretende tomar. Diante disso, temos o risco imediato de corrermos o perigo de ter no autoritarismo difuso já implantado na sociedade pelo governo do PT mobilizar as massas e massacrar o novo em um possível Governo Marina.
A relação capital-trabalho tem no Brasil um íntima relação com o binônimo opressores-oprimidos. E neste sentido, teremos uma elite banqueiros, grandes industriais, multinacionais e tecnoburocracia estatal, aliada a intelectuais, jornalistas e uma imprensa subordinada e clientelista a manipular a opinião pública retirando dos cidadãos a capacidade e o poder de fazer suas próprias escolhas. Correríamos o risco de nos ver diante de uma situação parecida com a que vive a Argentina e a Venezuela, ou, no outro oposto tornarmo-nos parecidos com o Chile.
Uma mediação de sucesso só seria possível com um combate forte a corrupção desde o primeiro dia de governo; coragem para impor uma revolução educacional que propiciasse uma revolução das consciências e da cultura aliada a coragem de se enfrentar os males da especulação capitalista e os males que a mesma provoca na vida cotidiana das pessoas. Um governo em disputa, aberto ao debate e a participação social será sempre um governo de riscos. Correr o risco de encontrar um caminho novo, um caminho diferente pode e será sempre mais vantajoso do que saber que estamos caminhando inexoravelmente para o precipício.






[1] Nelson Soares dos Santos é Licenciado em Pedagogia, Mestre em Educação Brasileira, Professor Universitário e Membro da Direção Nacional do Partido Popular Socialista.

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