Estive na cidade de Alto
Paraiso de Goiás e ouvi atentamente as palavras de um candidato derrotado a
Prefeitura. Na opinião dele, perdeu a eleição por que houve o que denominou “fraude
de urna”. No caminho, ao retornar, encontramos uma família que sofreu acidente
na rodovia. A primeira coisa que ousei conferir foi a razão do acidente. E para
minha surpresa não foi por causa de buraco na pista, e sim, por que o motorista
dormiu ao volante. Enquanto parte da família esperava chorando pela ambulância
o motorista dorminhoco procurava partes do carro na beira da estrada. Ajudamos
nos primeiros socorros, e ao seguir viagem fui pensando no ocorrido.
Chegando a Goiânia fiquei
sabendo que o paciente que eu visitara no Hospital das Clínicas, tinha recebido
tratamento adequado, estava bem instalado e estava sendo preparado para uma cirurgia
que pode prolongar a vida dele. A esposa do paciente, havia me dito que em 11
dias que o mesmo estava no hospital nunca tinha recebido a visita de um médico.
Quando lá chegamos, meia hora depois chegaram dois médicos plantonistas. Fiquei
sabendo que tem médico plantonista o tempo todo no hospital e por especialidades,
mas que, muitas vezes os médicos olham os pacientes apenas uma vez ao dia.
Escrevo tudo isso para
mostrar que não podemos discutir a questão democrática no Brasil, sem também
discutir a cultura e os costumes na Esfera da Sociedade Civil. Não se pode
apenas culpar o Governo Estadual, Federal, ou municipal e ignorar que não é o
Governador ou prefeito que atende ao paciente, e sim, o diretor do hospital, o
médico, o enfermeiro, o técnico em Enfermagem. Os próprios servidores afirmaram
que a saúde tem melhorado, mas, ninguém tem coragem de discutir as relações
micros no seio da sociedade civil. Quando perguntei se tinha médico, o técnico
em Enfermagem se recusou a responder; o enfermeiro, que estava em início de
Estágio Probatório pediu que eu perguntasse a
Enfermeira chefe, e ao falar com a Enfermeira Chefe, depois de ser
informado que não tinha médico plantonista que pudesse conversar e dar uma
olhada no paciente, apareceram dois médicos, isso mesmo, dois médicos para
tratar do problema.
Eis a questão. O avô
motorista que vendo sua família machucada continua preocupado com a
possibilidade de achar peças do carro, o candidato que acha que as urnas foram
fraudadas, e os médicos plantonista que hão existiam e que por milagre
apareceram. O que os ligam é a mesma questão – a lógica vivida pelos seres
humanos na atualidade. Estamos perdendo
o contato com o nosso lado humano, a capacidade de compaixão, de
perceber o sofrimento das pessoas como nosso
próprio sofrimento. Quando transformamos tudo em mercadoria, quando
começamos a achar que a felicidade está na capacidade de consumir, quando os
nossos semelhantes se tornam objetos com os quais podemos alcançar nossos
objetivos, perdemos o nosso senso de humanidade. Nestas condições não é
possível a democracia.
A democracia é um modelo
de governo que só pode existir de fato se houver humanismo na esfera da
política e na Esfera da Sociedade Civil. Um humanismo que façam a todos perceber a que a liberdade
própria não existe sem a liberdade do outro, que o cumprimento do dever é tão importante
quanto a cobrança dos direitos e que a consciência da cidadania, ou em um
trocadilho, a cidadania consciente é mais que um privilégio, deve ser um dever
de todos. Há que se cobrar que o médico plantonista cumpra o seu dever, faça o
seu trabalho com a mesma ênfase que se cobra dos políticos uma melhor gestão.
Há que se buscar a compreensão de que o ser humano é belo e terrível, de que a
traição, a inveja, etc, faz parte da natureza humana.
Buscar uma nova
democracia, um novo modelo de organização e gestão da sociedade, um novo modelo
de política torna-se hipócrita se não se discute os costumes e virtudes da
sociedade civil. Precisamos voltar a discutir com seriedade o papel da família,
da escola, dos espaço de lazer para compreendermos as possibilidades existentes
de se construir um novo modo de viver e melhorar a qualidade de vida. A solução
não está mais só na política, o problema como a solução está também espalhado
por toda sociedade civil e em todos os homens. É tempo de transição.
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