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sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Caos na saúde, ato médico e Médicos Cubanos: Um pitaco a mais.



Nelson Soares dos Santos[1]

Estou acompanhando pela mídia, a polêmica envolvendo a história dos médicos estrangeiros, especialmente a possibilidade do convênio com Cuba tornar-se realidade e o Brasil receber quatro mil médicos cubanos. Para além das opiniões políticas e politizadas pus-me a ouvir todos os médicos que conheço sobre o problema. De outro lado, tentei entender outra polêmica: a questão do ato médico e o caos na saúde, afinal, parece-me que o fundamento de toda a polêmica é a existência do Caos na saúde pública brasileira, pois se esta, não houvesse, não haveria médicos cubamos, nem mais médicos, e talvez nem mesmo o tal ato médico.

O Caos Na Saúde.

Não creio que seja necessário delongar aqui sobre o caos na saúde pública. Este é um fato tão real que até os cegos começaram a vê-lo. O interessante notar é que só agora médicos que são políticos e políticos que são médicos resolveram entrar no mérito da questão. Afinal, qual a razão fundamental da existência do Caos na saúde pública no Brasil?
Arrisco a resposta de que a questão não é falta de verba, nem tão pouco falta de médicos. A questão é que a cultura brasileira ( aqui todos incluídos, médicos, políticos, etc) é uma cultura da desigualdade social. Quero dizer com isso que nós, todos nós, legitimamos todo tempo a questão da desigualdade social no Brasil. Até aceitamos que as pessoas possam mudar de classe, mas não corroboramos com a ideia de combater ou mesmo erradicar a desigualdade social extrema, e mesmo a fome ao nosso redor. É a cultura da desigualdade social que faz um médico achar normal ser pago para trabalhar 6 horas no SUS, e trabalhar apenas duas, atendendo dez pacientes e indo embora, muitas vezes, trabalhar o restante das horas em hospital particular. Uma vez questionei um médico por que fazia isso, e ele disse que no SUS ganhava pouco demais, no que respondi para ela deixar o SUS e ficar só no Particular. Ele tomou como ofensa minha resposta.
A verdade é que uma grande quantidade de médicos que trabalham no SUS ou em hospitais públicos não respeitam nem o povo cidadão nem o poder público. Sentem-se  e comportam como quase deuses. Sentem-se se assim por fazer parte de uma dita “elite” ( na verdade conheço pouquíssimos médicos que de fato fazem parte de uma elite cultural), quando na verdade o máximo é que são endinheirados, muitas vezes, dinheiro conseguido com tratamento desumano para com os seus semelhantes.

O Ato Médico.

Ouvi diversos médicos sobre a questão do ato médico. Aliás, fiquei sabendo que a profissão de médico não é regulamentada, e, confirmei que médicos também reclamam quando são submetidos a condições desumanas de trabalho. Quando questionei sobre a polêmica envolvendo os demais profissionais de saúde ( Psicólogos, nutricionistas, Fisioterapeutas, etc), a maioria gaguejaram. Não souberam explicar direito a gritaria que fazem quando se argumenta que é raro ver um médico fazer procedimentos que estes profissionais fazem.
A verdade é que o médico no Brasil, na saúde pública, raramente conversa com o paciente, muitas vezes sequer o toca ou olha no rosto. Quando começa a se argumentar sobre isso, a conversa se estende para o processo de formação, a cultura, etc. Entretanto, explicar por que o médico da saúde pública brasileira não ouve o paciente, não conversa e está sempre correndo, na maioria das vezes por que vai deixar de cumprir o horário de contrato no SUS para atender particular não resolve o problema do cidadão que morre todos os dias nas filas dos hospitais.
Há que se perceber que não há sentido na gritaria dos médicos quanto a relação com os outros profissionais. Duvido de que alguma coisa vá mudar no cotidiano dos hospitais. Na relação com as enfermeiras, por exemplo, na quase totalidade das vezes são elas que aplicam as injeções. O médico, quando muito, passa no quarto do paciente uma vez ao dia, para ler o prontuário e averiguar o efeito dos medicamentos, pelo menos, é isso que as visitas as doentes em hospitais e acompanhamentos me ensinou. Assim sendo, colocar tais serviços como privativo dos médicos os faria ainda mais exigentes quanto a questão salarial, no sentido de torna-los uma classe ainda mais privilegiada.

O “Mais Médicos” e os Médicos Cubanos.

Eu não tenho dúvida de que o programa “Mais Médicos” do PT é um programa político e com objetivos políticos cujo eixo central é tentar melhorar a imagem da presidente Dilma. Afinal, não faltam médicos no Brasil. O que falta é mudar a cultura da classe médica, quebrar a cultura dos grandes laboratórios, e, o estado cumprir o seu papel de regulador das relações sociais.
Também não tenho como concordar com a história dos médicos cubanos. Se tais médicos vão viver no Brasil, o mínimo que devemos aceitar é que tenham os mesmos direitos dos médicos brasileiros e deles sejam exigidos cumprir os mesmos deveres. Utilizar de razões e acordos políticos para que os salários destes homens sejam utilizados para sustentar uma elite política que deixa duvidoso se realmente governam com justiça social é no mínimo ideológico e, sem generosidade uma estupidez. Diante disso, coloco abaixo algumas ideias que podem ajudar os políticos a pensarem em soluções para a saúde pública no Brasil:
1.    Um programa intenso de educação em saúde visando investir em saúde preventiva.
2.    Regularização da profissão do profissional de Saúde, unificando o piso salarial de todos os profissionais de saúde e construindo plano de carreira de estado, de acordo com a complexidade do trabalho de cada um de suas especializações;
3.    Proibição de acumulação de cargos para profissionais da saúde que trabalharem no setor público.
4.     Construção de um sistema nacional de dossiê dos pacientes que pudesse ser consultado em qualquer parte do país.
Parecem mudanças simples, mas tenho certeza, revolucionaria o a saúde pública no Brasil. E, mudaria definitivamente o papel do  médico na sociedade, pois este deixaria de existir, e o que passaria a existir seria o profissional de saúde com função de cuidar deste ou daquele aspecto do tratamento da saúde dos pacientes.
Quanto ao “Mais Médico” do PT? Bom, a sugestão que todo Brasil se una e diga não. Não seremos nós os responsáveis por escravizar pessoas em pleno século XXI, em nome de se defender uma ideologia que não se sustenta mais.






[1] Nelson Soares dos Santos é  Técnico em Magistério, Pedagogo e Mestre em Educação. É filiado ao PPS em Goiás.

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