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terça-feira, 20 de agosto de 2013

Memórias de Aldo Arantes: "Alma em Fogo" de um guerreiro sereno


Nelson Soares dos Santos
Estou acompanhando pelos jornais e mídias sociais as notícias do lançamento das memórias do ex-deputado federal Aldo Arantes. A obra já lhe rende críticas positivas, como era de se esperar pela qualidade da trajetória do biografado. Conheci Aldo Arantes, pessoalmente, no ano de 1998. Era campanha de Marconi Perillo ao governo e o momento flertava com a mudança. Apresentado por seu Ranulfo naquele segundo turno, no ano seguinte, eu me tornava membro do diretório Estadual do PC do B, quando tive a honra de por cinco anos conviver e ouvir as posições políticas de Aldo Arantes.
Caso me fosse pedido uma sugestão para o título de sua memórias, eu não sugeriria “Alma em Fogo”, e sim “Guerreiro Sereno”. Aldo é um daqueles homens raros que possui em si a alma do guerreiro. Em um homem assim, as causas que defende e as ideias que professa estão sempre à flor da pele, expandem-se junto com a energia que vem do espírito e o alimento que o mantém vivo.
Conheci poucos homens como ele, em um momento no qual eu chegava a pensar que não valia mais a pena viver por ideal, Aldo Arantes foi uma das chamas que manteve minha chama acesa, e me fez continuar a acreditar que sempre vale a pena lutar por justiça, por um país onde os homens sejam tratados todos iguais e todos como seres humanos.
Não me esqueço de jamais de uma reunião que tivemos na sede da Câmara Municipal de Vereadores de Goiânia. O partido encontrava-se dividido. De um lado, Fábio Tokarski, que, por razões que até hoje não compreendo, defendia o rompimento com o governo Marconi. Do outro lado, Gilvane Felipe, então indicado secretário de Ciência e Tecnologia pelo PC do B, defendia que o partido deveria buscar uma forma de apoiar a reeleição de Marconi Perillo já no primeiro turno e não se alinhar ao PT. A reunião começou às 9 horas da manha, e, durante todo dia, debatemos a conjuntura nacional, a política local e todas as possibilidades possíveis, situando o que partido poderia contribuir para fazer avançar as reformas e a democracia.
Às 18 horas ainda não se tinha chegado a nenhum consenso. O grupo de Gilvane começava a ameaçar deixar o partido caso houvesse um rompimento com o governador. No meio do fogo cruzado, o Secretariado da Direção do Partido, do qual eu ocupava o posto de secretário de Comunicação e Propaganda, buscava uma tática que preservasse a unidade do partido e, ao mesmo tempo, pudesse fortalecer os avanços democráticos conquistados pelo governo Marconi. Como não era possível encontrar o consenso, foi decidido por um intervalo.
Aldo, que passara todo o dia praticamente em silêncio e impassível em sua cadeira, chamara minha atenção. Eu não conseguia entender como um homem de 60 anos conseguia passar o dia inteiro em uma reunião que, penso, para ele não tinha sentido algum, de forma silenciosa, praticamente sem opinar, calmo, ponderado e apenas ouvindo. Todos sabíamos que, daquela decisão, Aldo poderia ser o mais prejudicado. A decisão ali tomada, e da forma como fosse tomada, influenciaria diretamente processo de sua reeleição para deputado federal.
No intervalo para o lanche, não me contive e me dirigi até ele e perguntei como era possível que tivesse tanto autodomínio, em um momento no qual poderia sair como maior perdedor. Perguntei como alcançara tamanho domínio próprio e como poderia se manter tão calmo e impassível. Ele respondeu que o domínio próprio ele adquirira na prisão enquanto era torturado e nas coisas nas quais pensava após os momentos de tortura. Já a razão que o fazia ficar tão calmo é que ele não era deputado federal para afagar o próprio ego, que estava naquela reunião durante todo dia com um único objetivo: estava servindo ao país e às ideias de um mundo mais justo, e que se não fosse eleito, continuaria servindo ao país, de outras formas, em outras batalhas. De forma serena, pediu que eu nunca esquecesse minhas próprias raízes, que apenas manter-se ligado as próprias raízes pode nos fazer imunes as tentações do poder.
Até hoje, aquela tarde está em minhas reflexões. É por tudo isso, que “Alma em Fogo” pode até traduzir toda a força de luta que existe nele, mas o guerreiro sereno é a imagem que ficou em minha mente.
Nelson Soares dos Santos é professor universitário e integrante do PPS de Goiás.

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