Estou
acompanhando pela mídia, a polêmica envolvendo a história dos médicos
estrangeiros, especialmente a possibilidade do convênio com Cuba tornar-se realidade
e o Brasil receber quatro mil médicos cubanos. Para além das opiniões políticas
e politizadas pus-me a ouvir todos os médicos que conheço sobre o problema. De
outro lado, tentei entender outra polêmica: a questão do ato médico e o caos na
saúde, afinal, parece-me que o fundamento de toda a polêmica é a existência do
Caos na saúde pública brasileira, pois se esta, não houvesse, não haveria
médicos cubamos, nem mais médicos, e talvez nem mesmo o tal ato médico.
O
Caos Na Saúde.
Não
creio que seja necessário delongar aqui sobre o caos na saúde pública. Este é
um fato tão real que até os cegos começaram a vê-lo. O interessante notar é que
só agora médicos que são políticos e políticos que são médicos resolveram entrar
no mérito da questão. Afinal, qual a razão fundamental da existência do Caos na
saúde pública no Brasil?
Arrisco
a resposta de que a questão não é falta de verba, nem tão pouco falta de
médicos. A questão é que a cultura brasileira ( aqui todos incluídos, médicos,
políticos, etc) é uma cultura da desigualdade social. Quero dizer com isso que
nós, todos nós, legitimamos todo tempo a questão da desigualdade social no
Brasil. Até aceitamos que as pessoas possam mudar de classe, mas não
corroboramos com a ideia de combater ou mesmo erradicar a desigualdade social
extrema, e mesmo a fome ao nosso redor. É a cultura da desigualdade social que
faz um médico achar normal ser pago para trabalhar 6 horas no SUS, e trabalhar
apenas duas, atendendo dez pacientes e indo embora, muitas vezes, trabalhar o
restante das horas em hospital particular. Uma vez questionei um médico por que
fazia isso, e ele disse que no SUS ganhava pouco demais, no que respondi para
ela deixar o SUS e ficar só no Particular. Ele tomou como ofensa minha
resposta.
A
verdade é que uma grande quantidade de médicos que trabalham no SUS ou em
hospitais públicos não respeitam nem o povo cidadão nem o poder público. Sentem-se e comportam como quase deuses. Sentem-se se
assim por fazer parte de uma dita “elite” ( na verdade conheço pouquíssimos médicos
que de fato fazem parte de uma elite cultural), quando na verdade o máximo é
que são endinheirados, muitas vezes, dinheiro conseguido com tratamento
desumano para com os seus semelhantes.
O
Ato Médico.
Ouvi
diversos médicos sobre a questão do ato médico. Aliás, fiquei sabendo que a
profissão de médico não é regulamentada, e, confirmei que médicos também
reclamam quando são submetidos a condições desumanas de trabalho. Quando questionei
sobre a polêmica envolvendo os demais profissionais de saúde ( Psicólogos,
nutricionistas, Fisioterapeutas, etc), a maioria gaguejaram. Não souberam
explicar direito a gritaria que fazem quando se argumenta que é raro ver um
médico fazer procedimentos que estes profissionais fazem.
A
verdade é que o médico no Brasil, na saúde pública, raramente conversa com o
paciente, muitas vezes sequer o toca ou olha no rosto. Quando começa a se
argumentar sobre isso, a conversa se estende para o processo de formação, a
cultura, etc. Entretanto, explicar por que o médico da saúde pública brasileira
não ouve o paciente, não conversa e está sempre correndo, na maioria das vezes
por que vai deixar de cumprir o horário de contrato no SUS para atender
particular não resolve o problema do cidadão que morre todos os dias nas filas
dos hospitais.
Há
que se perceber que não há sentido na gritaria dos médicos quanto a relação com
os outros profissionais. Duvido de que alguma coisa vá mudar no cotidiano dos
hospitais. Na relação com as enfermeiras, por exemplo, na quase totalidade das
vezes são elas que aplicam as injeções. O médico, quando muito, passa no quarto
do paciente uma vez ao dia, para ler o prontuário e averiguar o efeito dos
medicamentos, pelo menos, é isso que as visitas as doentes em hospitais e
acompanhamentos me ensinou. Assim sendo, colocar tais serviços como privativo
dos médicos os faria ainda mais exigentes quanto a questão salarial, no sentido
de torna-los uma classe ainda mais privilegiada.
O
“Mais Médicos” e os Médicos Cubanos.
Eu
não tenho dúvida de que o programa “Mais Médicos” do PT é um programa político
e com objetivos políticos cujo eixo central é tentar melhorar a imagem da
presidente Dilma. Afinal, não faltam médicos no Brasil. O que falta é mudar a
cultura da classe médica, quebrar a cultura dos grandes laboratórios, e, o
estado cumprir o seu papel de regulador das relações sociais.
Também
não tenho como concordar com a história dos médicos cubanos. Se tais médicos
vão viver no Brasil, o mínimo que devemos aceitar é que tenham os mesmos
direitos dos médicos brasileiros e deles sejam exigidos cumprir os mesmos
deveres. Utilizar de razões e acordos políticos para que os salários destes
homens sejam utilizados para sustentar uma elite política que deixa duvidoso se
realmente governam com justiça social é no mínimo ideológico e, sem
generosidade uma estupidez. Diante disso, coloco abaixo algumas ideias que
podem ajudar os políticos a pensarem em soluções para a saúde pública no
Brasil:
1. Um
programa intenso de educação em saúde visando investir em saúde preventiva.
2. Regularização
da profissão do profissional de Saúde, unificando o piso salarial de todos os
profissionais de saúde e construindo plano de carreira de estado, de acordo com
a complexidade do trabalho de cada um de suas especializações;
3. Proibição
de acumulação de cargos para profissionais da saúde que trabalharem no setor
público.
4. Construção de um sistema nacional de dossiê
dos pacientes que pudesse ser consultado em qualquer parte do país.
Parecem
mudanças simples, mas tenho certeza, revolucionaria o a saúde pública no
Brasil. E, mudaria definitivamente o papel do
médico na sociedade, pois este deixaria de existir, e o que passaria a
existir seria o profissional de saúde com função de cuidar deste ou daquele
aspecto do tratamento da saúde dos pacientes.
Quanto
ao “Mais Médico” do PT? Bom, a sugestão que todo Brasil se una e diga não. Não
seremos nós os responsáveis por escravizar pessoas em pleno século XXI, em nome
de se defender uma ideologia que não se sustenta mais.