A
primeira vez que tive contato com o que se chama de barbárie foi estudando
sobre a segunda guerra mundial. Lembro que chorei ao ouvir as descrições de
como eram mortos os dissidentes de Hitler, principalmente judeus, mórmons, e
outros. Na época assisti o filme a Lista de Schindler e novamente derramei
lágrimas de dor. Desde então, dediquei-me a estudar o que levam os homens a
crimes tão bárbaros. Sinceramente nunca encontrei uma resposta que de fato
pudesse explicar tais absurdos.
Esta
semana as imagens de filas de corpos mortos por ataque de armas químicas na
síria, o grande número de mortos no Egito e o avanço da violência, inclusive no
Brasil, novamente trouxe ao debate a questão da barbárie. E quando o discurso
toma o campo do emocional pouco se faz para de fato entender o que está
acontecendo com o mundo. Menos divulgado, as imagens de soldados americanos estuprando
e torturando muçulmanos podem ser colocadas tranquilamente no rol de crimes
bárbaros cometidos contra a humanidade. Afinal, são apenas estas as formas que
tais absurdos se apresentam? E o que os
motivam?
Quando
analisou a questão da segunda guerra mundial, Adorno colocou-nos uma questão
que de certa forma, foi tida como verdade para grande parte dos intelectuais. Em
diversos de seus textos, Adorno afirma que apenas a educação para emancipação
poderia evitar futuras atrocidades como as que ocorreram na Alemanha. Ao analisar
a questão da indústria cultural o autor da Escola de Frankfurt tenta mostrar
que a dificuldade obter uma consciência elevada da realidade, ou da capacidade
de interpretação do real leva a um tipo de alienação que torna a razão humana
irracional e leva aos piores cataclismos.
O
problema é que nos dias de hoje, diferente da Alemanha de Hitler, as decisões
não me parecem representar uma alienação da maioria, afinal, a maioria das
grandes decisões referentes a guerras são tomadas por especialistas, e a grande
maioria, sequer possui condições de compreender os elementos que compõe a
situação. No caso do Egito, Síria e Estados Unidos, a democracia não representa
a vontade e a consciência do povo, uma vez, que em sua grande maioria o povo
destes países não conhece os entremeios dos bastidores da diplomacia
internacional.
De
outro lado, não creio que os chamados especialistas responsáveis pelas lutas
que se estabelecem nos bastidores não tenham uma formação humana, ou pelo
menos, não tenha tido oportunidade de obtê-la. Então a questão que se deve
colocar é outra, mesmo a questão do bem e do mal e como esta dicotomia se
apresenta nos seres humanos. Temos a responsabilidade de investigar tal questão
para além das dicotomias ideológicas, ou estaremos condenados a conviver com
outros mortos, outros campos de concentração e outras calamidades.
Desta,
forma, pensar a barbárie de hoje significa repensar a sociedade que vivemos, o
modelo desta sociedade, das relações que existem entre sociedade, mercado e
estado para que possamos compreender as
dificuldades vividas pelas instituições consideradas tradicionais, como a
família, as religiões, etc; e quais novas instituições podem estar surgindo
destas novas realidades. O sonho de um mundo pacífico não parece estar próximo,
e se parece que a educação pode contribuir para o desenvolvimento da consciência humana, as condições para que o
homem escolha fazer sempre o bem ao seu semelhante pode não ser apenas uma
questão da evolução da consciência e aquisição da Autoconsciência. É necessário
que repudiemos tais acontecimentos grotescos, mas que isso é importante
refletir sobre o que motiva as escolhas de cada um de nós.
[1]Nelson
Soares dos Santos é Técnico em Magistério, Licenciado em Pedagogia, Mestre em
Educação Brasileira e filiado ao PPS Goiás.